quinta-feira, 10 de março de 2011

Cérebro, o computador humano...

Vídeo Cérebro, o computador humano, uma produção do Discovery Channel. Demosntra como, em milhões de anos de evolução, o cérebro humano conseguiu todas as capacidades atuais, tornando o ser humano a espécie animal particularmente diferente dos outros animais.

Cérebro, o computador humano - Parte 01/03




Cérebro, o computador humano - Parte 02/03



Cérebro, o computador humano - Parte 03/03

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Surgimento e transformações do conhecimento científico...

Desenvolvido pelo professor Leopoldo de Meis, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ, o projeto Ensinando Ciência com Arte elaborou o vídeo intitulado Luz, Trevas e o Método Científico, aqui apresentado em partes. Este vídeo visa a abordar a origem do pensamento humano, sua evolução e o surgimento da ciência, bem como demonstrar, de forma crítica, as relações entre a ciência, a sociedade e o poder, no transcorrer da história humana.


Luz, Trevas e o Método Científico (Introdução)



Luz, Trevas e o Método Científico (Parte 1 de 7)



Luz, Trevas e o Método Científico (Parte 2 de 7)



Luz, Trevas e o Método Científico (Parte 3 de 7)



Luz, Trevas e o Método Científico (Parte 4 de 7)



Luz, Trevas e o Método Científico (Parte 5 de 7)



Luz, Trevas e o Método Científico (Parte 6 de 7)



Luz, Trevas e o Método Científico (Parte 7 de 7)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

MAS O QUE É A VERDADE... UM JOGO DE PALAVRAS?!...





SOBRE A VERDADE E MENTIRA NO SENTIDO EXTRA-MORAL
Friedrich Nietzsche



1

No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer.

Esta é a fábula que se poderia inventar, sem com isso chegar a iluminar suficientemente o aspecto lamentável, frágil e fugidio, o aspecto vão e arbitrário dessa exceção que constitui o intelecto humano no seio da natureza. Eternidades passaram sem que ele existisse; e se ele desaparecesse novamente, nada se teria passado; pois não há para tal intelecto uma missão que ultrapasse o quadro de uma vida humana. Ao contrário, ele é humano e somente seu possuidor e criador o trata com tanta paixão, como se ele fosse o eixo em torno do qual girasse o mundo. Se pudéssemos entender a mosca, perceberíamos que ela navega no ar animada por essa mesma paixão e sentindo em si que voar é o centro do mundo. Nada há de tão desprezível e de tão insignificante na natureza que não transborde como um odre ao menor sopro dessa força do conhecer, e assim como todo carregador quer também ter o seu admirador, o homem mais arrogante, o filósofo, imagina ter também os olhos do universo focalizados, como um telescópio, sobre suas obras e seus pensamentos. É admirável que o intelecto seja responsável por esta situação, ele a quem todavia não foi dado senão servir precisamente como auxiliar dos seres mais desfavorecidos, mas vulneráveis e mais efêmeros, a fim de mantê-los na vida pelo espaço de um minuto — existência da qual eles teriam todo o direito de fugir, tão rapidamente como o filho de Lessing, não fosse esta ajuda recebida. Este orgulho ligado ao conhecimento e à percepção, névoa que cega o olhar e os sentidos do homem, engana-os sobre o valor da existência, exatamente quando vem acompanhada da avaliação mais lisonjeira possível com relação ao conhecimento. O seu efeito mais comum é a ilusão; mas seus efeitos mais particulares implicam também qualquer coisa da mesma ordem.

O intelecto, enquanto meio de conservação do indivíduo, desenvolve o essencial de suas forças na dissimulação, pois esta é o meio de conservação dos indivíduos mais fracos e menos robustos, na medida em que lhe é impossível enfrentar uma luta pela existência munidos de chifres ou das poderosas mandíbulas dos animais carnívoros. É no homem que esta arte da dissimulação atinge o seu ponto culminante: a ilusão, a lisonja, a mentira e o engano, a calúnia, a ostentação, o fato de desviar a vida por um brilho emprestado e de usar máscaras, o véu da convenção, o fato de brincar de comediante diante dos outros e de si mesmo, em suma, o gracejo perpétuo que em todo lugar goza unicamente com o amor da vaidade, são nele a tal ponto a regra e a lei, que quase nada é mais inconcebível do que o aparecimento, nos homens, de um instinto de verdade honesto e puro. Eles estão profundamente mergulhados nas ilusões e nos sonhos, seu olhar somente desliza sobre a superfície das coisas e vê apenas as “formas”, sua percepção não leva de maneira nenhuma à verdade, mas se limita a receber as excitações e a andar como que às cegas no dorso das coisas. Além disso, durante a vida toda, o homem se deixa enganar à noite pelos sonhos, sem que jamais o seu sentido moral procure impedi-lo disso, embora deva haver homens que, por força da vontade, tiveram sucesso em se livrar do ronco. Mas o que sabe o homem, na verdade, de si mesmo? E ainda, seria ele sequer capaz de se perceber a si próprio, totalmente de boa-fé, como se estivesse exposto numa vitrine iluminada? A natureza não lhe dissimula a maior parte das coisas, mesmo no que concerne a seu próprio corpo, a fim de mantê-lo prisioneiro de uma consciência soberba e enganadora, afastado das tortuosidades dos intestinos, afastado do curso precipitado do sangue nas veias e do complexo jogo de vibrações das fibras? Ela atirou fora a chave; e infeliz da curiosidade fatal que chegar um dia a entrever por uma fresta o que há fora desta cela que é a consciência e aquilo sobre o que ela está assentada, e descobrir então que o homem repousa, a despeito da sua ignorância, sobre um fundo impiedoso, ávido, insaciável e mortífero, agarrado a seus sonhos assim como ao dorso de um tigre. Nessas condições, haveria no mundo um lugar de onde pudesse surgir o instinto de verdade?

No estado de natureza, na medida em que o indivíduo quer conservarse diante dos outros indivíduos, ele não utiliza sua inteligência o mais das vezes senão com fins de dissimulação. Mas, na medida em que o homem, ao mesmo tempo por necessidade e por tédio, quer viver em sociedade e no rebanho, necessário lhe é concluir a paz e, de acordo com este tratado, fazer de modo tal que pelo menos o aspecto mais brutal do bellum omnium contra omnes desapareça do seu mundo. Ora, este tratado de paz fornece algo como um primeiro passo em vista de tal enigmático instinto de verdade. De fato, aquilo que daqui em diante deve ser a “verdade” é então fixado, quer dizer, é descoberta uma designação uniformemente válida e obrigatória das coisas, e a legislação da linguagem vai agora fornecer também as primeiras leis da verdade, pois, nesta ocasião e pela primeira vez, aparece uma oposição entre verdade e mentira. O mentiroso utiliza as designações pertinentes, as palavras, para fazer parecer real o que é irreal; ele diz por exemplo: “eu sou rico”, ainda que, para qualificar sua condição, fosse justamente a palavra “pobre” a designação mais correta. Ele mede as convenções estabelecidas, operando substituições arbitrárias ou mesmo invertendo os nomes. Se age assim de maneira interessada e demasiadamente prejudicial, a sociedade não lhe dará mais crédito e, por causa disso, o excluirá. Nesse caso, os homens fogem menos da mentira do que do prejuízo provocado por uma mentira. Fundamentalmente, não detestam tanto as ilusões, mas as conseqüências deploráveis e nefastas de certos tipos de ilusão. É apenas nesse sentido restrito que o homem quer a verdade. Deseja os resultados favoráveis da verdade, aqueles que conservam a vida; mas é indiferente diante do conhecimento puro e sem conseqüência, e é mesmo hostil para com as verdades que podem ser prejudiciais e destrutivas. Mas, por outro lado, o que são as convenções da linguagem? São produtos eventuais do conhecimento e do sentido da verdade? Coincidem as coisas e suas designações? É a linguagem a expressão adequada de toda e qualquer realidade?

Somente graças à sua capacidade de esquecimento é que o homem pode chegar a imaginar que possui uma verdade no grau que nós queremos justamente indicar. Se ele recusa contentar-se com uma verdade na forma de tautologia, quer dizer, como cascas vazias, ele tomará eternamente ilusões por verdades. O que é uma palavra? A transposição sonora de uma excitação nervosa. Mas, concluir a partir de uma excitação nervosa uma causa primeira exterior a nós, isso é já até onde chega uma aplicação falsa e injustificável do princípio da razão. Se a verdade tivesse sido o único fator determinante na gênese da linguagem e se o ponto de vista da certeza o fosse quanto às designações, como teríamos então o direito de dizer, por exemplo, que “esta pedra é dura”, como se conhecêssemos o sentido de “duro” de outro modo que não fosse apenas uma excitação totalmente subjetiva? Classificamos as coisas segundo os gêneros, designamos l’arbre como masculino e a planta como feminino: que transposições arbitrárias! A que ponto estamos afastados do cânone da certeza!

Falamos de uma serpente: a designação alcança somente o fato de se contorcer, o que poderia convir igualmente ao verme. Que delimitações arbitrárias, que parcialidade é preferir ora uma ora outra propriedade de uma coisa! As diferentes línguas, quando comparadas, mostram que as palavras nunca alcançam a verdade, nem uma expressão adequada; se fosse assim, não haveria efetivamente um número tão grande de línguas. A “coisa em si”, como sendo precisamente a verdade pura e sem conseqüência, enquanto objeto para aquele que cria uma linguagem, permanece totalmente incompreensível e absolutamente indigna de seus esforços. Esta designa somente as relações entre os homens e as coisas e para exprimi-las ela pede o auxílio das metáforas mais audaciosas. Transpor uma excitação nervosa numa imagem! Primeira metáfora. A imagem por sua vez é transformada num som! Segunda metáfora. A cada vez, um salto completo de uma esfera para outra completamente diferente e nova. Imaginemos um homem que seja totalmente surdo e que jamais tenha percebido o som e a música: da mesma maneira que ele sem dúvida se espanta com as figuras acústicas de Chladni feitas de areia e descobre sua causa na vibração das cordas, jurará então por esta descoberta que não poderá ignorar daí por diante o que os homens chamam de som, assim como ocorre com todos nós no que concerne à linguagem. Acreditamos possuir algum saber sobre as coisas propriamente, quando falamos de árvores, cores, neve e flores, mas não temos entretanto aí mais do que metáforas das coisas, as quais não correspondem absolutamente às entidades originais. Assim como o som enquanto figura de areia, também o x enigmático da coisa em si é primeiramente captada como excitação nervosa, depois como imagem, afinal como som articulado. A gênese da linguagem não segue em todos os casos uma via lógica, e o conjunto de materiais que é por conseguinte aquilo sobre o que e com a ajuda de quem o homem da verdade, o pesquisador, o filósofo, trabalha e constrói, se não provém de Sírius, jamais provém em todo caso da essência das coisas.

Pensemos ainda uma vez, particularmente, na formação dos conceitos: toda palavra se torna imediatamente conceito, não na medida em que ela tem necessariamente de dar de algum modo a idéia da experiência original única e absolutamente singular a que deve o seu surgimento, mas quando lhe é necessário aplicar-se simultaneamente a um sem-número de casos mais ou menos semelhantes, ou seja, a casos que jamais são idênticos estritamente falando, portanto a casos totalmente diferentes. Todo conceito surge da postulação da identidade do não-idêntico. Assim como é evidente que uma folha não é nunca completamente idêntica à outra, é também bastante evidente que o conceito de folha foi formado a partir do abandono arbitrário destas características particulares e do esquecimento daquilo que diferencia um objeto de outro. O conceito faz nascer a idéia de que haveria na natureza, independentemente das folhas particulares, algo como a “folha”, algo como uma forma primordial, segundo a qual todas as folhas teriam sido tecidas, desenhadas, cortadas, coloridas, pregueadas, pintadas, mas por mãos tão inábeis que nenhum exemplar teria saído tão adequado ou fiel, de modo a ser uma cópia em conformidade com o original. Dizemos de um homem que ele é honesto; perguntamos a nós mesmos porque ele agiu hoje tão honestamente. Respondemos geralmente que foi por causa da sua honestidade. Honestidade! Isto significa novamente dizer que a folha é a causa das folhas. Não sabemos mesmo absolutamente nada de uma qualidade essencial chamada honestidade, no entanto conhecemos inumeráveis ações individualizadas e por conseguinte dessemelhantes, mas que postulamos como idênticas ao deixarmos de lado o que as torna diferentes; assim, designamos as ações honestas a partir das quais afinal formulamos uma qualitas occulta com o termo: a honestidade.

A omissão do particular e do real nos dá o conceito, assim como nos dá a forma, contrariamente ao que revela a natureza, que não conhece formas ou conceitos e portanto nenhum gênero, mas somente um x para nós inacessível e indefinível. Pois a oposição que introduzimos entre o indivíduo e a espécie é também antropomórfica e não provém da essência das coisas, mesmo quando ousamos dizer que esta oposição não corresponde à essência das coisas; pois isto seria de fato uma afirmação dogmática e, enquanto tal, tão indemonstrável quanto a afirmação contrária.

O que é portanto a verdade? Uma multidão móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos; em resumo, uma soma de relações humanas que foram realçadas, transpostas e ornamentadas pela poesia e pela retórica e que, depois de um longo uso, pareceram estáveis, canônicas e obrigatórias aos olhos de um povo: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que o são, metáforas gastas que perderam a sua força sensível, moeda que perdeu sua efígie e que não é considerada mais como tal, mas apenas como metal.

Não sabemos ainda todavia de onde provém o instinto de verdade, pois até agora só temos falado do constrangimento que a sociedade impõe como condição da existência: é necessário ser verídico, quer dizer, empregar metáforas usuais; portanto, nos termos da moral, só temos falado da obrigação de mentir segundo uma convenção estabelecida, mentir como rebanho e num estilo obrigatório para todos. Na verdade, o homem esquece que é assim que se passam as coisas. Ele mente portanto inconscientemente, tal como indicamos, conformando-se a costumes seculares... e é mesmo por intermédio dessa inconsciência, desse esquecimento, que ele chega ao sentimento da verdade. Ao experimentar o sentimento de estar obrigado a designar uma coisa como vermelha, outra como fria, uma terceira como muda, ele é seduzido por um impulso moral que o orienta para a verdade e, em oposição ao mentiroso a que ninguém dá crédito e que todos excluem, o homem é persuadido da dignidade, da confiança e da utilidade da verdade. Enquanto ser racional, deve agora submeter seu comportamento ao poder das abstrações; não suporta mais ser levado pelas impressões súbitas e pelas intuições, mas generaliza em primeiro lugar todas as impressões em conceitos mais frios e mais exangües, a fim de atrelar neles a condução da sua vida e do seu agir.

Tudo o que eleva o homem acima do animal depende dessa capacidade de fazer desaparecer as metáforas intuitivas num esquema ou, em outras palavras, dissolver uma imagem num conceito. Sob o domínio desses esquemas, é possível ser bem sucedido em relação àquilo que jamais se alcançaria submetido às primeiras impressões intuitivas: edificar uma pirâmide lógica ordenada segundo divisões e graus, instaurar um novo mundo de leis, privilégios, subordinações e delimitações, que se opõe desde logo ao outro mundo, o mundo intuitivodas primeiras impressões, como sendo aquele melhor estabelecido, mais geral, melhor conhecido, mais humano e, por esta razão, como uma instância reguladora e imperativa. Enquanto toda metáfora da intuição é particular e sem igual, escapando sempre portanto à qualquer classificação, o grande edifício dos conceitos apresenta a estrita regularidade de um columbário romano, edifício de onde emana aquele rigor e frieza da lógica que são próprios das matemáticas. Aquele que estivesse impregnado desta frieza hesitaria em crer que mesmo o conceito — duro como o osso e cúbico como um dado e como ele intercambiável — acabasse por ser somente o resíduo de uma metáfora e que a ilusão própria a uma transposição estética de uma excitação nervosa em imagens, se não era a mãe, era entretanto a avó de tal conceito. Mas nesse jogo de dados dos conceitos, chama-se “verdade” o fato de se utilizar cada dado segundo a sua designação, de computar exatamente seus pontos, de formular rubricas corretas e de jamais pecar contra o ordenamento das divisões ou contra a série ordenada das classificações. Assim como os romanos e os etruscos dividiram o céu segundo linhas matemáticas estritas e destinaram este espaço assim delimitado para templum de um deus, assim também todo povo possui um céu conceitual semelhante a que está adstrito; a exigência da verdade significa então para ele que todo conceito, a exemplo de um deus, somente deve ser procurado na sua própria esfera. Bem poderíamos, a respeito disso, admirar o homem pelo fato de ser ele um poderoso gênio da arquitetura: ele conseguiu erigir uma catedral conceitual infinitamente complicada sobre fundações movediças, de qualquer maneira sobre água corrente. Na verdade, para encontrar um ponto de apoio em tais fundações, precisa-se de uma construção semelhante às teias de aranha, tão fina que possa seguir a corrente da onda que a empurra, tão resistente que não se deixe despedaçar à mercê dos ventos. Enquanto gênio da arquitetura, o homem supera em muito a abelha: esta constrói com a cera que recolhe da natureza, o homem o faz com a matéria bem mais frágil dos conceitos que é obrigado a fabricar com seus próprios meios. Nisso, o homem é bem digno de ser admirado — mas não por seu instinto de verdade ou pelo conhecimento puro das coisas. Se alguém esconde algo atrás de uma moita e depois a procura exatamente nesse lugar acabando por encontrá-la aí, não há nenhum motivo para a glorificação dessa procura e dessa descoberta.

Mas é todavia isso o que ocorre com a procura e a descoberta da “verdade” no domínio que concerne à razão. Quando dou a definição de mamífero e quando, depois de ter examinado um camelo, declaro: eis aqui um mamífero, isto é certamente uma verdade que vem à luz, mas o seu valor é limitado; quero dizer com isso que ela é em tudo uma definição antropomórfica e que não contém qualquer coisa que seja “verdade em si”, real e universal, independentemente do homem. Aquele que se põe à busca de tais verdades, no fundo procura somente a metamorfose do mundo no homem; luta para alcançar uma compreensão do mundo enquanto coisa humana e conquista no melhor dos casos o sentimento de uma assimilação. Semelhante a um astrólogo, aos olhos de quem as estrelas estão a serviço dos homens e relacionadas com sua felicidade ou infelicidade, um tal pesquisador considera o mundo inteiro como estando ligado aos homens, como o eco sempre deformado de uma voz primordial do homem, como a cópia multiplicada e diversificada de uma imagem primordial do homem. Seu método consiste no seguinte: considerar o homem como medida de todas as coisas; porém, assim fazendo, parte do erro que consiste em acreditar que as coisas lhe seriam dadas imediatamente enquanto puros objetos. Ele esquece portanto que as metáforas originais da intuição são já metáforas, e as toma pelas coisas mesmas.

Foi somente o esquecimento desse mundo primitivo das metáforas, foi apenas a cristalização e a esclerose de um mar de imagens que surgiu originariamente como uma torrente escaldante da capacidade original da imaginação humana, foi unicamente a crença invencível em que este sol, esta janela, esta mesa são verdades em si, em suma, foi exclusivamente pelo fato de que o homem esqueceu que ele próprio é um sujeito e certamente um sujeito atuante criador e artista, foi isto que lhe permitiu viver beneficiado com alguma paz, com alguma segurança e com alguma lógica. Se ele pudesse por um instante transpor os muros desta crença que o aprisiona, adquiriria imediatamente a “consciência de si”. Já lhe custa bastante reconhecer até que ponto o inseto ou o pássaro percebem o mundo de uma maneira totalmente diferente do homem, e confessar que a questão de saber qual das duas percepções é a mais justa é completamente absurda, já que para respondê-la precisaria em primeiro lugar que se as medisse segundo o critério da percepção justa, quer dizer, segundo um critério do qual não se dispõe. Mas me parece sobretudo que a percepção justa — que significaria a expressão adequada de um objeto num sujeito — é um absurdo pleno de contradições: pois, entre duas esferas absolutamente distintas como são o sujeito e o objeto, não há qualquer laço de causalidade, qualquer exatidão, qualquer expressão possíveis, mas, antes de mais nada, uma relação estética, quer dizer, no sentido que dou, uma transposição aproximativa, uma tradução balbuciante numa língua totalmente estranha. Contudo, isto exigiria em todo caso uma esfera intermediária e uma força auxiliar onde a criação e a descoberta pudessem operar livremente. A palavra fenômeno esconde muitas seduções; eis porque eu evito empregá-la o mais que posso, pois não é verdade que a essência das coisas se manifeste no mundo empírico. Um pintor que fosse maneta e quisesse exprimir pelo canto o quadro que ele projeta pintar dirá sempre mais, passando de uma esfera a outra, do que revela o mundo empírico sobre a essência das coisas. A própria relação entre uma excitação nervosa e a imagem produzida não é em si nada de necessário; mas se precisamente esta mesma imagem for reproduzida milhões de vezes e se inúmeras gerações de homens deixam-na de herança, enfim, sobretudo se ela aparece ao conjunto da humanidade sempre nas mesmas circunstâncias, ela acaba por adquirir, para o homem, a mesma significação como se ela fosse a única imagem necessária e como se esta relação entre a excitação nervosa de origem e a imagem produzida fosse uma relação de estrita causalidade. Assim também, um sonho eternamente repetido seria experimentado e julgado como absolutamente real. Mas a cristalização e a esclerose de uma metáfora não daria nenhuma garantia quanto à necessidade e à legitimidade exclusiva desta metáfora.

Todo homem familiarizado com tais considerações experimentou evidentemente uma desconfiança profunda a respeito de todo idealismo desse tipo, a cada vez que se mostrou claramente persuadido pela lógica, pela universalidade e pela infalibilidade eternas das leis da natureza, e disso tirou a seguinte conclusão: aí tudo é certo, elaborado, infinito, regrado, desprovido de falha até onde pode levar o nosso olhar — graças ao telescópio apontado para as alturas do mundo e graças ao microscópio dirigido para as suas profundezas. A ciência terá sempre material para explorar com êxito este poço e tudo quanto ela puder encontrar concordará sem se contradizer. Quão pouco se assemelha isto a um produto da imaginação, pois, se assim o fosse, seria todavia necessário que algo da ilusão e da irrealidade que lhe são próprias se revelasse. Ao contrário, é preciso dizer primeiramente o seguinte: se tivéssemos em cada parte nossa uma percepção sensível de natureza diferente, poderíamos perceber ora como um pássaro, ora como um verme de terra, ora como uma planta; ou, se um de nós percebesse uma excitação visual como vermelha, se outro a percebesse como azul ou se, para um terceiro, fosse uma excitação auditiva, ninguém diria que a natureza é regida por leis, mas contrariamente a conceberíamos somente como uma construção altamente subjetiva. Assim: o que é então para nós uma lei da natureza? Ela não nos é conhecida em si, mas apenas nos seus efeitos, ou seja, nas suas relações com outras leis da natureza que, por sua vez, somente são conhecidas enquanto relações. Portanto todas as relações nada fazem senão remeter-se umas às outras e nos são absolutamente incompreensíveis quanto à sua essência. Unicamente o que aí colocamos, o tempo e o espaço, quer dizer, as relações de sucessão e os números, nos é realmente conhecido. Mas tudo o que precisamente nos surpreende nas leis da natureza, que reclama nossa análise e que poderia nos levar à desconfiança do idealismo, reside de fato e unicamente no rigor matemático, unicamente na inviolabilidade das representações do tempo e do espaço, e não em outro lugar. Ora, produzimo-las em nós e projetamo-las fora de nós segundo a mesma necessidade que leva a abelha a tecer sua teia. Se somos obrigados a conceber todas as coisas apenas sob tais formas, então não há nada de admirável em captar sob estas mesmas formas o que verdadeiramente procuramos nas coisas. De fato, todas elas necessariamente se referem às leis do número, e o número é justamente o que há de mais surpreendente nas coisas. Toda presença das leis que se nos impõe sobre o curso dos astros e sobre os processos químicos coincide no fundo com aquelas propriedades que acrescentamos às coisas para assim darmo-nos respeito a nós mesmos. Disso resulta, sem dúvida nenhuma, que esta criação artística de metáforas que marca em nós a origem de toda percepção pressupõe já aquelas formas nas quais, por via de conseqüência, ela se efetua. É apenas a persistência invariável dessas formas originais que explica a possibilidade que permite assim construir um edifício conceitual apoiado novamente sobre as próprias metáforas. Este edifício é com efeito uma réplica das relações de tempo, espaço e número, reconstruído sobre a base das metáforas.

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Como vimos, na elaboração dos conceitos trabalha originariamente a linguagem e depois a ciência. Como a abelha que constrói os alvéolos de sua colméia e logo os preenche com mel, a ciência trabalha incansavelmente no seu grande columbário de conceitos que é o cemitério das intuições, constrói ininterruptamente novos e mais elevados estágios, escora, limpa e renova os velhos compartimentos e se esforça sobretudo para preencher este colossal andaime até a desmedida e para fazer entrar e arrumar aí a totalidade do mundo empírico, isto é, o mundo antropomórfico. Enquanto o homem de ação chega a ligar sua existência à razão e a seus conceitos, a fim de não se ver arrastado e não se perder, o pesquisador constrói o seu tugúrio ao pé da torre da ciência para buscar auxílio no seu trabalho e encontrar proteção sob o baluarte já edificado. Ele tem necessidade de fato de proteção, pois há poderes terríveis que o ameaçam constantemente e que opõem à verdade científica verdades de um tipo totalmente diferente, com os sinais mais diversos.

Esse instinto que compele à criação de metáforas, esse instinto fundamental do homem do qual não podemos prescindir um só instante, pois assim fazendo não levaríamos em conta o homem mesmo, esse instinto não está submetido à verdade, apenas encontra-se disciplinado na medida em que, a partir de produções evanescentes, como são os conceitos, edificou-se um novo mundo regular e resistente que se ergue diante dele como uma fortaleza. Ele procura um novo domínio e um outro canal para a sua atividade, e os encontra no mito e de maneira geral na arte. Embaralha continuamente as rubricas e os escaninhos dos conceitos ao estabelecer novas transposições, novas metáforas e novas metonímias; continuamente manifesta o seu desejo de dar ao mundo, tal como este é aos olhos do homem acordado, tão diverso, irregular, vão, incoerente, uma forma sempre nova e cheia de encanto, semelhante a do mundo onírico. Em si, o homem acordado não tem consciência do seu estado de vigília senão graças à trama dos conceitos, e por esta razão chega mesmo a crer que sonha quando a arte despedaçou esta trama dos conceitos. Pascal tem razão quando afirma que, se tivermos o mesmo sonho toda noite, ficaríamos preocupados com ele, assim como o fazemos com as coisas que vemos durante o dia: “Se um artesão estivesse certo de sonhar toda noite, durante doze horas plenas, que era um rei, creio, diz Pascal, que ele seria quase tão feliz quanto um rei que toda noite sonhasse durante doze horas que era um artesão” . Graças ao milagre que se produz continuamente, assim como o concebe o mito, o estado de vigília de um povo estimulado pelo mito, por exemplo os antigos gregos, é de fato mais parecido com o sonho do que o mundo acordado do pensador desiludido pela ciência. Já que qualquer árvore pode falar como uma ninfa, ou quando, sob a máscara de um touro, um rei pode raptar virgens, quando se é posto subitamente a contemplar a própria deusa Atena em companhia de Pisístrato atravessando o mercado de Atenas em sua bela parelha — e é isso que o ateniense honrado acredita ver — tudo se torna possível desde esse instante, como num sonho, e toda a natureza cerca o homem com uma ronda prodigiosa, como se fosse uma mascarada dos deuses a brincar de enganar os homens através de todas as formas das coisas.

Mas o próprio homem tem uma invencível tendência para se deixar enganar e fica como que enfeitiçado de felicidade quando o rapsodo lhe recita, como se fossem verdades, os contos épicos, ou quando um ator desempenhando o papel de um rei se mostra mais nobre no palco do que um rei na realidade. O intelecto, esse mestre da dissimulação, está aí tão livre e dispensado do trabalho de escravo que ordinariamente executou durante tanto tempo, que pode agora enganar sem trazer prejuízo; ele festeja então suas saturnais e não é mais exuberante, mais rico, mais soberbo, mais lesto e mais ambicioso senão aí. Com um prazer de criador, lança as metáforas desordenadamente e desloca os limites da abstração a tal ponto, que pode designar o rio como o caminho que leva o homem aonde ele geralmente vai. Ele está livre então do sinal da servidão: empenhado habitualmente na sombria tarefa de indicar a um pobre indivíduo que aspira a existência o caminho e os meios de alcançá-lo, extorquindo para o seu senhor a presa e o produto do saque, ele agora tornou-se o senhor e pode então apagar do rosto a expressão da indigência. Tudo o que faz daí por diante, comparado com a maneira como agia antes, envolve a dissimulação, assim como o que fazia antes envolvia a distorção. Ele imita a vida do homem, mas a toma por uma boa coisa e parece estar com isso verdadeiramente satisfeito. Esta armadura e este chão gigantesco dos conceitos, aos quais o homem necessitado se agarra durante a vida para assim se salvar, não é para o intelecto liberado senão um andaime e um joguete para suas obras de arte mais audaciosas; e quando ele o quebra, o parte em pedaços e o reconstrói juntando ironicamente as peças mais disparatadas e separando as peças que se encaixam melhor, isto revela que ele não precisa mais daquele expediente da indigência e que não se encontra mais guiado pelos conceitos, mas pelas intuições. Nenhum caminho regular leva dessas intuições ao país dos esquemas fantasmagóricos, ao país das abstrações: para aquelas, a palavra ainda não foi forjada; o homem fica mudo quando as vê, ou só fala por metáforas proibidas e por encadeamentos conceituais até então inauditos, para responder de maneira criativa, pelo menos pelo escárnio e pela destruição das velhas barreiras conceituais, a impressão que dá o poder da intuição atual.

Houve épocas em que o homem racional e o homem intuitivo conviviam lado a lado, um com medo da intuição, o outro desprezando a abstração, sendo este último tão irracional quanto o primeiro era insensível com relação à arte. Ambos desejavam dominar a vida: o primeiro sabendo responder às necessidades mais imperiosas através da previsão, da engenhosidade e da regularidade; o outro, o “herói transbordante de alegria”, vendo nessas mesmas necessidades e admitindo unicamente como real a vida disfarçada sob a aparência e a beleza. Lá onde o homem intuitivo, um pouco como na Grécia antiga, aplica seus golpes com mais força e eficácia do que seu adversário, uma civilização pode surgir sob auspícios favoráveis e a dominação da arte sobre a vida pode aí se estabelecer. Tal dissimulação, tal recusa da indigência, tal brilho das intuições metafóricas e sobretudo tal imediatidade da ilusão acompanham todas as manifestações de uma existência. Nem a casa, nem o passo, nem a roupa, nem o cântaro de argila revelam qual foi a necessidade que os criou: parece como se em todos eles devesse exprimir-se uma felicidade sublime e uma serenidade olímpica, como que num jogo levado a sério. Enquanto o homem orientado pelos conceitos e pelas abstrações somente os utiliza para se proteger da infelicidade, sem retirar dessas abstrações, para seu proveito próprio, qualquer felicidade, enquanto ele se esforça para se libertar o máximo possível desses sofrimentos, o homem intuitivo, estabelecido no seio de uma civilização, retira, como fruto de suas intuições, além da proteção contra a infelicidade, uma clarificação, um desabrochar e uma redenção transbordantes. É verdade que ele sofre mais violentamente quando sofre e sofre mesmo mais freqüentemente porque não sabe tirar lição da experiência e por isso cai sempre novamente na mesma vala em que já caíra antes. Portanto, é tão desarrazoado no sofrimento quanto na felicidade; grita sem obter qualquer consolação. Como é diferente, no meio de um destino também funesto, a atitude do homem estóico, instruído pela experiência e senhor de si graças aos conceitos! Aquele que ordinariamente só busca a sinceridade e a verdade só procura livrar-se da ilusão e proteger-se contra surpresas enfeitiçadas; aquele que experimenta na infelicidade a obra-prima da dissimulação, tal como o homem intuitivo na felicidade, este não tem mais o rosto humano sobressaltado e transtornado, mas leva uma espécie de máscara de admirável simetria de traços; não grita e não altera a voz. Quando uma boa chuva cai sobre ele, ele se envolve com o seu manto e se distancia com passos lentos sob a chuva.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

É POSSÍVEL CONHECER A VERDADE ATRAVÉS DA CIÊNCIA?





A NOÇÃO DE OBSTÁCULO EPISTEMOLÓGICO

A noção de obstáculo epistemológico é um dos mais importantes eixos, se não o principal, do pensamento filosófico de Gaston Bachelard. Por meio desta noção, ele trata do caráter insistente e generalizado de certas resistências ao conhecimento científico que não ficaram restritas ao passado, mas se presentificam sempre como impasse ao progresso do pensamento humano.

Bachelard parte da tese de que o progresso das ciências tem como condição princeps a colocação dos problemas científicos sob a forma de obstáculos que incidem sob o próprio ato de conhecer. Por uma espécie de imperiosidade funcional surgem as lentidões e as dificuldades que devem obrigar o espírito científico ao questionamento sobre as causas que levam à estagnação, à regressão e até mesmo à inércia.

Obstáculo epistemológico foi o nome que Bachelard utilizou para batizar tudo que se incrusta no conhecimento não questionado, todos os pontos onde o progresso científico estanca, regride ou goza inerte. A importância de detectá-los sustenta sua tese de que o ato de conhecer se dá sempre contra um conhecimento anterior, destruindo o que foi mal estabelecido e superando o que, no próprio espírito [nota], se forma como obstáculo à espiritualização.

Bachelard estabelece que o espírito científico é fruto de uma evolução: da tarefa primordial de tornar geométrica a representação até o ponto onde ocorre a abstração completa, uma vez que a geometrização primeira pode estar fundada no ingênuo realismo das propriedades espaciais. O caminho da abstração procede da necessidade do espírito trabalhar sob o espaço, no nível em que se destacam as relações essenciais que sustentam espaço e fenômenos, isto é, as leis. Levar o pensamento científico a construções mais metafóricas que reais, ou seja, levá-lo a abstrair, é o procedimento normal e fecundo do espírito científico.

No entanto, o processo de abstração não se dá de modo uniforme. Se uma cultura quer ser científica, ela deve começar por expor-se a uma catarse intelectual e afetiva. A razão disso é que toda experiência que se pretende concreta e real, natural e imediata tem sempre o caráter de obstáculo. Para sustentar tal afirmativa, Bachelard lança mão de duas teses.

Na primeira, afirma a existência de forças psíquicas que atuam no conhecimento científico. Contra essas forças, adverte que é preciso aplicar uma psicanálise, ou seja, é preciso despir o espírito das formas imaginárias às quais se apega e que o impelem a um falso rigor ou a uma unificação fácil. É preciso que se passe da contemplação do mesmo à busca do outro e à dialetização da experiência (2003, p.20) e, ainda, que se encontre a ação dos valores inconscientes na própria base do conhecimento empírico e científico. São eles que fazem a permanência de certos princípios de explicação. Segundo Bachelard, a psicanálise deve fazer o sábio confessar seus motivos inconfessáveis. (1999, p.90-91).

A segunda tese é a de que não se obtém conhecimento senão como resposta a uma pergunta formulada sob a forma de um problema relativo a um saber. A capacidade de destacar, sob a forma de um questionamento particular, o que faz obstáculo ao progresso do pensamento é o que permite que o saber científico seja reconstruído a cada momento. As demonstrações epistemológicas devem ser sempre desenvolvidas no âmbito dos problemas particulares, isto é, da descoberta e da problematização do que faz impasse à evolução de um determinado saber, sem preocupação com a ordem histórica em que esses problemas surgiram. Trata-se de privilegiar o que se coloca como obstáculo e não a cronologia.

O modo como Bachelard define e privilegia o que comparece como impasse não tem por objetivo realçar a pura oposição que incide contra um saber. Pelo contrário, a ênfase no obstáculo confere positividade à noção de obstáculo porque, ao destacá-lo, a conseqüência imediata é a exigência de que novas formulações e soluções possam ser alcançadas. Com isso, torna-se possível impulsionar a ciência em direção a novas conquistas, pois o modo como o problema é destacado já organiza o caminho da pesquisa vindoura. "Detectar os obstáculos epistemológicos é um passo para fundamentar os rudimentos da psicanálise da razão." (2003, p.24).

Encontrar os obstáculos requer uma psicanálise das "felicidades do espírito científico". Ele precisa ser arrancado "do narcisismo que a evidencia primeira proporciona, dar-lhe outra segurança que não a posse, outras forças de convicção que não o calor e o entusiasmo; em suma, provas que não seriam em absoluto chamas" diante das quais o espírito se deixaria ficar num êxtase hipnótico. (1999, p.6).

A noção de obstáculo epistemológico pode ser estudada no desenvolvimento histórico do pensamento científico. No entanto, o epistemólogo não deve se debruçar sobre todos os documentos que um historiador é capaz de reunir. Sua escolha é seletiva e muito precisa. Deve tomar os fatos como se fossem idéias que se inserem num sistema de pensamento. Portanto, nunca tomá-las isoladamente.

Detectar a má interpretação de um fato numa determinada época é já detectar o que ali se interpôs como obstáculo, como contra-pensamento àquele sistema. Para Bachelard, todo conceito científico se liga a um anticonceito (2003, p.89). Ao captar os conceitos científicos em sínteses psicológicas progressivas, estabelecendo, a respeito de cada noção, uma escala de conceitos, o epistemólogo mostra como um conceito deu origem a outro, como está relacionado a outro. Desse modo, terá alguma probabilidade de avaliar a eficácia epistemológica porque o pensamento científico surge, então, como dificuldade vencida, como obstáculo superado. (Id., p.22-23).

Os principais obstáculos epistemológicos enumerados por Bachelard (2003) são os seguintes:

• A primeira experiência ou observação primeira: É repleta de imagens e sempre colocada antes e acima de toda crítica. Descrevê-la já é fator de arrebatamento. O espírito científico deve formar-se contra a Natureza, contra o encantamento, o colorido e o corriqueiro. A Natureza só pode ser verdadeiramente compreendida quando lhe fazemos resistência. É preciso considerar que entre a observação arrebatadora e a experimentação não há continuidade, mas ruptura. O obstáculo aqui surge com o apagamento da ruptura, quando ela se torna unidade, continuidade, desenvolvimento.

• Generalização: Acontece no instante seguinte às primeiras observações, quando já não há mais nada a observar. Os olhos deslumbrados fecham-se, então, num sistema que, por ser o primeiro, é sempre falso. Para Bachelard, a generalização apressada e fácil proporciona um perigoso prazer intelectual que leva o pensamento à imobilidade. O pensamento científico se engana quando segue duas tendências contrárias: a atração pelo particular e a atração pelo universal, que se caracterizam um, pelo conhecimento em compreensão e outro, pelo conhecimento em extensão. A saída desse impasse será encontrada com a criação de uma nova palavra que designe essa atividade do pensamento empírico inventivo. Para Bachelard, a fecundidade de um conceito científico é proporcional ao seu poder de deformação, que implica a necessidade de incorporar as condições de aplicação à própria essência da teoria.

• Primeiros conhecimentos gerais: São constituídos pelas interdições sociais. A experiência natural só virá depois para acrescentar prova material à lei. Assim, a queimadura confirma as interdições sociais, valorizando, aos olhos da criança, a inteligência paterna. O primeiro conhecimento geral sobre o fogo, por exemplo - "não se pode tocá-lo" -, é alcançado por meio da interdição social. No entanto, para que alguém o transforme num conhecimento pessoal, é preciso a desobediência engenhosa movida pelo desejo de saber, saber tanto ou mais que nossos pais e mestres (1999).

• Obstáculo verbal: Trata-se de uma falsa justificação obtida com a ajuda de uma palavra explicativa; extensão abusiva das imagens visuais; estranha inversão que pretende desenvolver o pensamento ao analisar um conceito, no lugar de inserir um conceito particular numa síntese racional.

• Substancialização: Um dos mais difíceis obstáculos a superar porque se apóia numa filosofia fácil. É a explicação monótona das propriedades por meio da substância; necessidade de explicação minuciosa, sintoma dos espíritos não científicos que pretendem nada negligenciar e dar conta de todos os aspectos da experiência concreta. É um obstáculo constituído por intuições dispersas e opostas, aproveitando-se dos artifícios da linguagem. Condensa num só objeto todos os conhecimentos em que esse objeto desempenha um papel sem se preocupar com a hierarquia dos papéis empíricos. Seu uso constrói mitos do tipo: o que é oculto é fechado, mito do interior, do íntimo, da continência, da concentração substancial, da valorização do comprimido, da substância virginal, etc.

• Conhecimento unitário e pragmático: A unidade é um princípio que sempre foi desejado para o espírito pré-científico que fazia com que as diversas atividades naturais se tornassem manifestações de uma só Natureza - por exemplo: o que é verdadeiro para o grande deve ser igualmente verdadeiro para o pequeno. As analogias não ajudam nenhuma pesquisa. Pelo contrário, provocam fugas de idéias, impedem a curiosidade. Trata-se da crença numa unidade harmônica do mundo que leva ao estabelecimento de uma sobredeterminação bem característica da mentalidade pré-científica. A ciência contemporânea, ao contrário, se instrui sobre sistemas isolados, sobre unidades parcelares e tem como princípio epistemológico a afirmação de que as quantidades desprezíveis devem ser desprezadas e não unificadas. O que conta são as determinações puramente plausíveis e nunca provadas. Todo pragmatismo, por sua vez, acaba exagerando pelo simples fato de ser um pensamento mutilado em função da indução utilitária. No uso pragmático apenas a utilidade é clara e capaz de explicar; nela se encontra a função real do verdadeiro. No entanto, esse modo utilitário de ver é uma aberração porque as explicações finalistas são sempre perigosas.

• Realismo: Pode ser considerado a única filosofia inata, uma vez que para o realista a substância de um objeto é aceita como um bem pessoal. Para Bachelard, todo realista é um avarento e todo avarento é um realista. Trata-se do sentimento de ter e do complexo do pequeno lucro. Não perder nada é, de saída, uma prescrição normativa que se torna uma descrição: passa do normativo para o positivo. O principal axioma do realismo não provado - nada se perde, nada se cria - é uma afirmação de avarento.

• Obstáculo animista: A natureza, em todos os seus fenômenos, é envolvida numa teoria geral do crescimento e da vida. A crença no caráter universal da vida pode ocasionar exageros incríveis quando verificada em casos concretos. Vida torna-se uma palavra mágica, valorizada. Qualquer outro princípio esmaece quando se pode invocar um princípio vital.

• O mito da digestão: A digestão é a origem do mais forte realismo, da mais abrupta avareza. Bachelard destaca aqui a função de posse como objeto de todo um sistema de valorização. O alimento sólido e consistente torna-se mais prezado. O beber não significa nada diante do comer. A fome é, portanto, a necessidade natural de possuir o alimento sólido, durável, integrável, assimilável, verdadeira reserva de força e poder.

• O mito da geração: Este mito esmaece quando comparado ao da geração: o ter e o ser nada são diante do devir. É preciso querer para tornar-se.

• A influência da libido no conhecimento objetivo: Pode ser observada nos pormenores da pesquisa objetiva disfarçada sob modalidades metafóricas. Uma das mais utilizadas é a idéia de germe e semente. Bachelard fornece exemplos de operações alquímicas que foram descritas como cópulas cuidadosamente observadas. A sexualização, que está sempre ativa no inconsciente, é capaz de
distinguir num mesmo metal ou num corpo amorfo como o ouro, senão órgãos sexuais, pelo menos forças sexuais diferentes. Mas as imagens nem sempre são tão explícitas. Muitas vezes contentam-se em tratar todo interior como ventre . Outras vezes, surgem sob a forma de uma lista imensa de nomes para uma mesma matéria ou objeto. Isso basta para mostrar que o objeto é uma ilusão. Só um amante poderia dar tantos nomes ao ser amado e colocar tanto narcisismo em suas juras de amor! Nesse tipo de obstáculo, o pensamento se desenvolve mais pelo eixo do eu-você do que pelo do eu-isso. A pessoa é buscada em detrimento da objetividade. Para Bachelard. não passa de uma resposta sintomática o tratamento sexualizado de uma reação química na qual dois corpos são diferenciados pelo fato de um ser descrito como ativo e outro, como passivo. Variações antitéticas do tipo o bom e o mau, o puro e o impuro, o suave e o podre, também são tomadas como sintomáticas. Para esses casos, só uma psicanálise completa do inconsciente científico poderia examinar a vontade de poder que a libido exerce sobre o espírito.

• O quantitativo: O conhecimento objetivo imediato já é falso por ser qualitativo uma vez que marca o objeto com impressões subjetivas e certezas prematuras. Por isso, pensa-se que o conhecimento quantitativo escaparia a esses perigos. Mas grandeza não é sinônimo de objetividade. Os obstáculos epistemológicos andam aos pares. Por isso, no reino da quantidade, a um matematismo demasiadamente vago se opõe a atração por outro, demasiado preciso; ao excesso de precisão no reino da quantidade corresponde outro, no da qualidade. O privilégio do quantitativo é fruto da crença maior do cientista na medida do que na realidade do objeto. Ele deixa escapar as relações do objeto em nome do esgotamento de sua determinação quantitativa. A mensuração depende de uma reflexão adequada e não o contrário; depende de um instrumental construído especificamente para o que se quer avaliar. A física moderna não postula o sobredeterminismo ou a correlação universal característicos do período pré-científico. Para se passar do espírito filosófico ao científico, é preciso que se aceite uma redução do alcance do determinismo. Na cultura científica tudo não é possível, há o direito de desprezar. O princípio de desprezabilidade está na base do cálculo diferencial. É preciso que se desenvolva o hábito do pensamento discursivo, pois a intuição nunca deve ser um dado, mas apenas uma ilustração. Para que o espírito científico se constitua como um conjunto de erros retificados é preciso que ele vença os inúmeros obstáculos epistemológicos. Eis o ponto de vista de Bachelard: "Psicologicamente, não há verdade sem erro retificado. A psicologia da atitude objetiva é a história de nossos erros pessoais." (2003, p.293).

A epistemologia requer alguns postulados:
• A marcha para o objeto não é inicialmente objetiva. Ela depende de uma verdadeira aceitação da ruptura existente entre o conhecimento sensível e o conhecimento científico. Não há operação subjetiva sem a consciência de um erro íntimo. Portanto, as lições de objetividade devem começar por uma confissão de falhas intelectuais. Mas essa catarse prévia não pode ser feita por um sujeito sozinho. Seria tão impossível quanto psicanalisar a si mesmo.

• Toda doutrina da objetividade precisa sujeitar o conhecimento do objeto ao controle de outrem. É preciso escolher o olho do outro para se ver a forma abstrata do fenômeno objetivo. Esse é o único circuito que permite dar alguma garantia de que foi feita uma completa abstração de nossas idéias primeiras. O alcance do pensamento abstrato implica uma perda importante: a de uma "visão de mundo".

• Quem é ensinado deve ensinar. Esse é o princípio pedagógico fundamental da atitude objetiva que objetiva formar também o dinamismo e a autocrítica, propiciando a experiência psicológica do erro humano. É preciso um exercício social da convicção racional para que a razão profunda não se assemelhe a um rancor, pois a convicção que não se confronta com um ensino age na alma como um amor desprezado. Ao propor uma psicanálise do espírito científico, Bachelard objetiva que o passado intelectual deva ser conhecido como tal, como passado. O antigo deve ser pensado em função do novo. "Na obra da ciência só se pode amar o que se destrói, pode-se continuar o passado negando-o, pode-se venerar o mestre contradizendo-o." (2003, p.309).

Rosa Guedes Lopes



REFERÊNCIAS:
BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 2003.
______. A psicanálise do fogo. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
BACHELARD, Gaston. A filosofia do não: filosofia do novo espírito científico. Lisboa: Presença, 1987.
______. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 2003.
______. A psicanálise do fogo. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
______. Ensaio sobre o conhecimento aproximado. Rio de Janeiro: Contraponto, 2004.
______. Epistemologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1977.
______. O novo espírito científico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000.

domingo, 18 de janeiro de 2009

AFINAL, O QUE É CIENTÍFICO, RUBÃO?





O que é científico (I)


Colega aposentado com todas as credenciais e titulações. Fazia tempo que a gente não se via. Entrou no meu escritório sem bater e sem se anunciar. E nem disse bom-dia. Foi direto ao assunto. "Rubão, estou escrevendo um livro em que conto o que aprendi através da minha vida. Mas eles dizem que o que escrevo não serve. Não é científico. Rubão: o que é científico?" Havia um ar de indignação e perplexidade na sua pergunta. Uma sabedoria de vida tinha de ser calada: não era científica. As inquisições de hoje, não é mais a igreja que faz.

Não sou filósofo. Eles sabem disso e nem me convidam para seus simpósios eruditos. Se me convidassem eu não iria. Faltam-me as características essenciais. Nietzsche, bufão, fazendo caçoada, cita Stendhal sobre as características do filósofo: "Para se ser um bom filósofo é preciso ser seco, claro e sem ilusões. Um banqueiro que fez fortuna tem parte do carater necessário para se fazer descobertas em filosofia, isto é, para ver com clareza dentro daquilo que é."

Não sou filósofo porque não penso a partir de conceitos. Penso a partir de imagens. Meu pensamento se nutre do sensual. Preciso ver. Imagens são brinquedos dos sentidos. Com imagens eu construo estórias.

E foi assim que, no preciso momento em que meu colega formulou sua pergunta perplexa, chamadas por aquela pergunta augusta, apareceram na minha cabeça imagens que me contram uma estória:

"Era uma vez uma aldeia às margens de um rio, rio imenso cujo lado de lá não se via, as águas passavam sem parar, ora mansas, ora furiosas, rio que fascinava e dava medo, muitos haviam morrido em suas águas misterioras, e por medo e fascínio os aldeões haviam construido altares às suas margens, neles o fogo estava sempre aceso, e ao redor deles se ouviam as canções e os poemas que artistas haviam composto sob o encantamento do rio sem fim.

O rio era morada de muitos seres misteriosos. Alguns repentinamente saltavam de suas águas, para logo depois mergulhar e desaparecer. Outros, deles só se viam os dorsos que se mostravam na superfície das águas. E havia as sombras que podiam ser vistas deslizando das profundezas, sem nunca subir à superfície. Contava-se, nas conversas à roda do fogo, que havia monstros, dragões, sereias, e iaras naquelas águas, sendo que alguns suspeitavam mesmo que o rio fosse morada de deuses. E todos se perguntavam sobre os outros seres, nunca vistos, de número indefinido, de formas impensadas, de movimentos desconhecidos, que morariam nas profundezas escuras do rio.

Mas tudo eram suposições. Os moradores da aldeiam viam de longe e suspeitavam - mas nunca haviam conseguido capturar uma única criatura das que habitavam o rio: todas as suas magias, encantações, filosofias e religiões haviam sido inúteis: haviam produzido muitos livros mas não haviam conseguido capturar nenhuma das criaturas do rio.

Assim foi, por gerações sem conta. Até que um dos aldeões pensou um objeto jamais pensado. (O pensamento é uma coisa existindo na imaginação antes dela se tornar real. A mente é útero. A imaginação a fecunda. Forma-se um feto: pensamento. Aí ele nasce...). Ele imaginou um objeto para pegar as criaturas do rio. Pensou e fez. Objeto estranho: uma porção de buracos amarrados por barbantes. Os buracos eram para deixar passar o que não se desejava pegar: a água. Os barbantes eram necessários para se pegar o que se deseja pegar: os peixes. Ele teceu uma rede.

Todos se riram dele quando ele caminhou na direção do rio com a rede que tecera. Riram-se dos buracos dela. Ele nem ligou. Armou a rede como pode e foi dormir. No dia seguinte, ao puxar a rede, viu que nela se encontrava, presa, enroscada, uma criatura do rio: um peixe dourado.

Foi aquele alvoroço. Uns ficaram com raiva. Tinham estado tentando pegar as criaturas do rio com fórmulas sagradas, sem sucesso. Disseram que a rede era objeto de feitiçaria. Quando o homem lhes mostrou o peixe dourado que sua rede apanhara eles fecharam os olhos e o ameaçaram com a fogueira.

Outros ficaram alegres e trataram de aprender a arte de fazer redes. Os tipos mais variados de redes foram inventados. Redondas, compridas, de malhas grandes, de malhas pequenas, umas para serem lançadas, outras para ficarem à espera, outras para serem arrastadas. Cada rede pegava um tipo diferente de peixe.

Os pescadores-fabricantes de redes ficaram muito importantes. Porque os peixes que eles pescavam tinham poderes maravilhosos para diminuir o sofrimento e aumentar o prazer. Havia peixes que se prestavam para ser comidos, para curar doenças, para tirar a dor, para fazer voar, para fertilizar os campos e até mesmo para matar. Sua arte de pescar lhes deu grande poder e prestígio e eles passaram a ser muito respeitados e invejados.

Os pescadores-fabricantes de redes se organizaram numa confraria. Para se pertencer à confraria era necessário que o postulante soubesse tecer redes e que apresentasse, como prova de sua competência, um peixe pescado com as redes que ele mesmo tecera.

Mas uma coisa estranha aconteceu. De tanto tecer redes, pescar peixes e falar sobre redes e peixes, os membros da confraria acabaram por esquecer a linguagem que os habitantes da aldeia haviam falado sempre e ainda falavam. Puseram, no seu lugar, uma linguagem apropriada às suas redes e os seus peixes, e que tinha de ser falada por todos os seus membros, sob pena de expulsão.

A nova linguagem recebeu o nome de ictiolalês ( do grego ichthys = peixe + lalia= fala ). Mas, como bem disse Wittgenstein, alguns séculos depois " os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo". O meu mundo é aquilo sobre o que posso falar. A linguagem estabelece uma ontologia. Os membros da confraria, por força dos seus hábitos de linguagem, passaram a pensar que somente era real aquilo sobre que eles sabiam falar, isto é, aquilo que era pescado com redes e falado em ictiolalês. Qualquer coisa que não fosse peixe, que não fosse apanhado com suas redes, que não pudesse ser falado em ictiolalês, eles recusavam e diziam: "Não é real".

Quando as pessoas lhes falavam de nuvens eles diziam: "Com que rede esse peixe foi pescado?" A pessoa respondia: "Não foi pescado, não é peixe." Eles punham logo fim à conversa: "Não é real". O mesmo acontecia se as pessoas lhes falavam de cores, cheiros, sentimentos, música, poesia, amor, felicidade. Essas coisas, não há redes de barbante que as peguem. A fala era rejeitada com o julgamento final: "Se não foi pescado no rio com rede aprovada não é real."

As redes usadas pelos membros da confraria eram boas? Muito boas.

Os peixes pescados pelos membros da confraria eram bons? Muito bons.

As redes usadas pelos membros da confraria se prestavam para pescar tudo o que existia no mundo? Não. Há muita coisa no mundo, muita coisa mesmo, que as redes dos membros da confraria não conseguem pegar. São criaturas mais leves, que exigem redes de outro tipo, mais sutis, mais delicadas. E, no entanto, são absolutamente reais. Só que não nadam no rio.

Meu colega aposentado com todas as credenciais e titulações: mostrou para os colegas um sabiá que ele mesmo criara. Fez o sabiá cantar para eles e eles disseram: "Não foi pego com as redes regulamentares; não é real; não sabemos o que é um sabiá; não sabemos o que é o canto de um sabiá..."

Sua pergunta está respondida, meu amigo: o que é científico?

Resposta: é aquilo que caiu nas redes reconhecidas pela confraria dos cientistas. Cientistas são aqueles que pescam no grande rio...

Mas há também os céus e as matas que se enchem de cantos de sabiás...Lá as redes dos cientistas ficam sempre vazias.




O que é científico? (II)


"Não há dúvidas de que a memória é o estômago da mente. Da mesma forma como o alimento é trazido à boca pela ruminação, assim as coisas são trazidas da memória pela lembrança." Santo Agostinho, autor dessa afirmação (capítulo 14 do livro 10 das Confissões ) percebeu com clareza as relações de analogia existentes entre o ato de pensar e o ato de comer. Nietzsche se deu conta da mesma analogia e afirmou que "a mente é um estômago". Quem entende como funciona o estômago entende como funciona a cabeça.

Analogia é um dos mais importantes artifícios do pensamento. Octávio Paz, no seu livro Los hijos del limo, afirma que "a analogia torna o mundo habitável" . Ela "é o reino da palavra como, essa ponte verbal que, sem suprimi-las, reconcilia as diferenças e oposições." A analogia nos permite caminhar do conhecido para o desconhecido. É assim: eu conheço A mas nada sei sobre B.Sei, entretanto, que B é análogo a A. Assim, posso concluir, logicamente, que B deve é parecido com A.

A analogia entre o estômago e a mente nos permite saltar daquilo que sabemos sobre o estômago para o que não sabemos acerca da mente. Em grande medida é graças às analogias que o conhecimento avança e que o ensino acontece. Quando a ciência usa as palavras "onda" e "partícula" ela está se valendo de analogias tiradas do mundo visível para dizer o universo naquilo que ele tem de invisível. Um bom professor tem de ser um mestre de analogias. Uma boa analogia é um flash de luz.

O estômago é órgão processador de alimentos. Os alimentos são objetos exteriores, estranhos ao corpo. Ele os transforma em objetos interiores, semelhantes ao corpo. É isso que torna possível a assimilação. Assimilar significa, precisamente, tornar semelhante (de assimilare, ad + similis).

A mente é um processador de informações. Informações são objetos exteriores, estranhos à mente. A mente os transforma em objetos interiores, isto é, pensáveis. Pelo pensamento as informações são assimiladas, tornam-se da mesma substância da mente. O pensamento estranho se torna pensamento compreendido.

Entre todos os estômagos, os humanos são os mais extraordinários, dada a sua versalitilidade. Eles têm uma capacidade inigualável para digerir os mais diferentes tipos de comida: leite, café, pão, manteiga, nabo, cenoura, jiló, mandioca, alface, repolho, ovo, trigo, milho, banana, coco, pequi, azeite, carne, pimenta, vinho, whisky, coca-cola, etc.

Por vezes, essa versatilidade do estômago é submetida a restrições. Alguns, por doença, deixam de comer torresmo e comidas gordurosas. Outros, por pobreza, acostumam-se a uma dieta de batatas, como na famosa tela de van Gogh. Outros, ainda, por religião, adotam um cardápio vegetariano.

Há estômagos que só conseguem digerir um tipo de comida. É o caso dos tigres. Seus estômagos só digerem carne. Eles só reconhecem carne como alimento. Se, num zoológico, o tratador dos tigres, vegetariano convicto, tentar converter os tigres às suas convicções alimentares, submetendo-os a uma dieta de nabos e cenouras, é certo que os tigres morrerão. Diante dos legumes os tigres dirão: " Isso não é comida!"

Os estômagos das vacas só digerem capim, com resultados magníficos para os seres humanos. É difícil pensar a vida humana sem a presença dos produtos que resultam dos processamentos digestivos dos estômagos das vacas sobre o capim. Sem as vacas não teríamos leite, café com leite, mingau, queijos (quantos!), filé à parmegiana, morango com leite condensado, sorvetes de variados tipos, cremes, pudins, sabonetes. Os estômagos das vacas, com sua modesta dieta de capim, são dignos dos maiores elogios.

A mente é um estômago. Há muitos tipos de mente-estômago. Alguns se parecem com os estômagos humanos e processam os mais variados tipos de informações. Leonardo da Vinci é um exemplo extraordinário desse estômago omnívoro, capaz de digerir poesia, música, arquitetura, urbanismo, pintura, engenharia, ciência, criptografia, filosofia. Outros estômagos se especializaram e só são capazes de digerir um tipo de alimento.

O que vou dizer agora, digo-o com o maior respeito, sem nenhuma intenção irônica. Estou apenas me valendo de uma analogia: é assim que o meu pensamento funciona. As possíveis queixas, que sejam feitas a Deus Todo Poderoso, pois foi ele, ou força análoga, que me deu o processador de pensamentos que tenho. A ciência é um dos nossos estômagos possíveis. Não é o nosso estômago original. É um estômago produzido historicamente, por meio de uma disciplina alimentar única. E eu sugiro que o estômago da ciência é análogo ao estômago das vacas. Os estômagos das vacas só reconhecem capim como alimento. Se eu oferecer a uma vaca um bife suculento, ela me olhará indiferente. Seu olhar bovino me estará dizendo "Isso não é comida". Para o estômago das vacas comida é só capim.

A ciência, à semelhança das vacas, tem um estômago especializado que só é capaz de digerir um tipo de comida. Se eu oferecer à ciência uma comida não apropriada ela a recusará e dirá: "Não é comida.". Ou, na linguagem que lhe é prórpria: "Isso não é científico." Que é a mesma coisa. Quando se diz : "Isso não é científico" está se dizendo que aquela comida não pode ser digerida pelo estômago da ciência.

Quando a vaca, diante do suculento bife, declara de forma definitiva que aquilo não é comida, ela está em êrro. Falta, à sua afirmação, senso crítico. Sua resposta, para ser verdadeira, deveria ser: "Isso não é comida para o meu estômago." Sim, porque para muitos outros estômagos aquilo é comida. Assim, quando a ciência diz " isso não é científico", é preciso ter em mente que, para muitos outros estômagos, aquilo é comida, comida boa, gostosa, que dá vida, que dá sabedoria. Acontece que existe uma inclinação natural da mente em acreditar que só é real aquilo que é real para ela (o que é, cientificamente, uma estupidez) - de modo que, quando normalmente se diz "isso não é científico" está se afirmando, implicitamente, que aquilo não é comida para estômago algum.

Vão me perguntar sobre as razões por que escolhi o estômago da vaca e não do tigre como análago ao da ciência. O tigre parece ser mais nobre, mais inteligente. A ESSO escolheu o tigre como seu símbolo; jamais escolheira a vaca. Ao que me consta, existe uma única instituição de saber superior cujo nome está ligado à vaca: é a universidade de Oxford. "Ox", como é bem sabido, é a palavra inglesa para vaca. Eu teria sido mais prudente escolhendo a analogia do tigre ao invés da vaca, posto que ambos os estômagos conhecem apenas um tipo de comida. Mas há uma diferença.Não há nada que façamos com os produtos dos estômagos dos tigres. Mas daquilo que o estômago da vaca produz os homens fazem uma série maravilhosa de produtos que contribuem para a vida e a cultura. Já imaginaram o que seria da culinária se não houvesse as vacas? Assim o estômago da ciência, com seus produtos infinitos, incontáveis, maravilhosos - se não fosse por eles eu já estaria morto - mais se assemelha ao estômago das vacas que ao dos tigres.

Resta-nos revelar a comida que o estômago da ciência é capaz de digerir. Vou logo adiantando: se não for dito em linguagem matemática a ciência diz logo: "Não é científico"... Concluo que isso que estou ouvindo agora, a Rhapsody in Blue, de Gershwin, que me dá tanto prazer, que me torna mais leve, que espanta a tristeza, coisa real pelos seus efeitos sobre meu corpo e minha alma, isso não é coisa que o estômago da ciência seja capaz de processar. Não é científico. O CD player, o estômago da ciência digere fácil. Mas a música a faz vomitar.




O que é científico? (III)


Quero seduzir você a jogar um jogo de palavras chamado filosofia. Você não se interessa por filosofia, nunca estudou filosofia, nada sabe sobre os filósofos. Filosofia, coisa chata e complicada. Compreendo. Mas as suas alegações simplesmente significam que você não tem condições para ser um professor de filosofia. Professores de filosofia têm de dominar uma tradição.

Mas note: o homem que inventou o alfabeto era analfabeto. O primeiro filósofo começou a filosofar não tinha atrás de si uma bibliografia filosófica. Jorge Luis Borges, quando seus alunos lhe pediam uma bibliografia, respondia: "Não é preciso bibliografia. Afinal Shakespeare desconhecia completamente a bibliografia shakespeareana." Excesso de informações perturba o pensamento. "Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare" : assim dia o Manoel de Barros. (É poeta-criança. Criança brinca com brinquedos; poeta brinca com palavras. Essa afirmação do poeta não é científica. Não foi produzida por um método. Ela é mágica. Quebra feitiços. Faz voar idéias plantadas.) Frequentemente os professores de filosofia pensam tanto o pensamento de outros que acabam por não ter pensamentos próprios.

Comecemos, então, por compreender que o filosofar não é conhecimento de uma tradição de pensamento. O filosofar é um jeito de fazer dançar as idéias. Mudo minha pergunta inicial: "Vamos dançar?"

Muitas são as danças: minueto, marcha, lambada, bolero, samba, tango... As danças, todas elas, se parecem com os jogos. Futebol, tênis, frescobol, volibol, xadrez, dama, buraco, mau-mau, pôquer, truco: todos são jogos. Jogos têm regras fixas e precisas. No jogo existe uma dança entre a liberdade e a regra fixa. A beleza do futebol está precisamente nisso: a brincadeira da liberdade do jogador dentro de um quadro de regras fixas.

Um jogo, como a dança, depende de duas coisas precisamente definidas. As entidades do xadrez são as peças: peão, dama, bispo... As regras são os movimentos possíveis das peças. As entidades da valsa são um homem, uma mulher, um ritmo. Os movimentos do homem e da mulher são definidos. Eles devem formar um par: dançar quase abraçados. É o par que deve se mover segundo o ritmo da valsa. As marchas não exigem pares. Cada um pode dançar sozinho, como nos bailes de carnaval. Mas o corpo deve se mover num ritmo binário. Já a dança flamenca é outra coisa. Pode ser dançada por uma única dançarina ou por um par - sendo que homem e mulher não ficam abraçados e executam evoluções por conta própria .

Sem que disso nos apercebamos, ao falar estamos fazendo jogos de palavras. Numa outra crônica, muito antiga, descrevi dois jogos constantemente jogados por casais: o tênis e o frescobol. O objetivo do jogo de palavras "tênis" é tirar o outro da jogada. Fim rápido. Ejaculação precoce. O objetivo do jogo de palavras "frescobol" é manter o outro na jogada. Fim adiado. Vai e vem prolongado. O bom não é a chegada; é a travessia. Há uma infinidade de jogos, todos eles com regras precisas e fixas.

A piada é um jogo cujo objetivo é produzir o riso. Sua estrutura é fixa. Consta de um discurso que cria uma expectava, um suspense, que é repentinamente interrompido por uma rasteira seguida de um fim inesperado. Nesse momento acontece o riso. A lamentação é um outro jogo. Consta de um relato de sofrimentos por que a pessoa passou, cujo objetivo é provocar sentimentos de admiração em quem ouve o relato. Mas isso nunca acontece porque a outra pessoa, ao término do relato da primeira, diz sempre: " Mas isso não é nada!" - começando a seguir o relato dos seus próprios sofrimentos. Contou-me uma paciente que, em certa região do Brasil, esse é o jogo predileto das mulheres pobres, cujo objetivo é ter a glória de ser aquela que "sofreu mais."

Há uma infinidade de jogos de palavras: a poesia, a sedução, as brigas de casais, os discursos dos políticos, a reza, a psicanálise, os comerciais, a aula ( Sim! a aula! Os professores deveriam parar para pensar no jogo que estão obrigando seus alunos a jogar! Uma das características desse jogo é que o aluno é obrigado a aceitar as "entidades" com que devem jogar ( disciplinas e currículos) e as "regras" do jogo que a escola impõe. Com alguma frequência o professor não quer jogar o jogo que a direção da escola e as burocracias governamentais lhe impõem: mas é obrigado a jogar, sob pena de perder o emprego. Nessa situação só lhe resta um recurso: a burla.

A burla é uma importante possibilidade presente numa grande quantidade de jogos. Futebol, por exemplo, está cheio de burlas. Já no volei as burlas são praticamente impossíveis. Não há formas de burlar no xadrez mas a graça do truco é, precisamente, a burla. As aulas de português são um jogo cujo objetivo é ensinar os alunos a jogar a jogo da linguagem de acordo com as regras oficiais: usar as palavras certas e a gramática certa. Nas aulas de português ensina-se o jogo da linguagem sem burlas, como se ele fosse idêntico ao jogo do xadrez. Mas a linguagem se parece mais com o truco. A poesia e a literatura são a arte de burlar as regras da linguagem. Para que? É só perguntar a um filósofo Zen que ele vai dar a resposta...

Filosofia é um jogo de linguagem, um jeito de usar as palavras. Na filosofia a gente usa as palavras para entender as palavras. Wittgenstein definiu esse jogo de palavras chamado filosofia como "uma batalha contra o feitiço da nossa inteligência por meio da linguagem". Frequentemente as pessoas ficam emburrecidas em decorrência das palavras que ficam grudadas na sua inteligência. Tenho notado, por exemplo, que a palavra "Deus" ( vejam; eu disse "a palavra" - não disse "Deus". Deus está além das palavras.) é uma das palavras que mais se agarram à inteligência, fazendo com que as pessoas parem de pensar.

Quem fica enfeitiçado, é bem sabido, entra em transe, começa a dançar e não para. Dizem que a madrastra da Branca de Neve dançou até morrer. É fácil identificar a pessoa cuja inteligência está enfeitiçada por uma palavra: ela só sabe dançar uma dança só. E quem só sabe jogar um jogo de linguagem fica burro. E chato. Porque a inteligência acontece precisamente nos saltos entre danças diferentes.

É preciso notar que o que enfeitiça é sempre uma coisa "fascinante". "Fascinio" - no Latim fascitatio - que dizer "encantamento mágico", " feitiço". O símbolo mágico do objeto fascinante: a maçã - coisa linda, deliciosa, desejável - lugar do conhecimento.

A ciência é coisa linda, deliciosa, desejavel, lugar do conhecimento, eu não poderia viver sem ela. Mas, como a maçã, ela tem um poder enfeitiçante. À medida em que dá conhecimento de um lado, ela retira conhecimento do outro. Volto ao Manoel de Barros: "A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir os seus encantos."

Daí o poder enfeitiçante- paralizante da fórmula "Isso não é científico" . Meu amigo, aquele que invadiu meu escritório, viu paralisado o canto do seu sabiá, quando essa fórmula lhe foi pronunciada pelos feiticeiros da ciência. Veio em busca de socorro. Queria as palavras para quebrar o feitiço.

É o que comecei a fazer e irei fazendo. Porque amo muito a ciência. Quero que os pescadores coninuem a pescar e a preparar os peixes deliciosos que eles pescam no rio da realidade. Mas quero que os pescadores sejam capazes também de ouvir o canto do sabiá que nenhuma rede pode pegar. Por vezes o canto do sabiá é mais impostante que um peixe que se pesca. Ou, para quem não entende: por vezes um poema, uma sonata, uma quadro, são mais importantes para a vida e a alegria que artefatos de saber e tecnologia. Precisamos dos dois: do conhecimento e da beleza. Mas beleza não é científica.




O que é científico? (IV)


Um cozinheiro cozinha. Um jardineiro cuida do jardim. Um barbeiro corta cabelo e barba. Um motorista guia carros. Um cientista, o que é que ele faz?

A palavra "cientista" é um bolso enorme. Arca de Noé. Lá dentro se encontram os tipos mais variados: astrônomos, geneticistas, clonadores de ovelhas, físicos quânticos, meteorologistas, químicos especialistas em aromas, anestesistas, caçadores de virus... A lista não tem fim. Olhando para aquilo que estão fazendo eles parecem pessoas que nada têm a ver umas com as outras. No entanto, um único nome é usado para todos, "cientista", o que quer dizer que, no fundo, eles estão jogando o mesmo jogo. Qaul é o jogo que um cientista joga?

"Um cientista, seja um teórico ou um experimentador, propõe declarações, ou sistemas de declarações, e as testa passo a passo." É assim que Karl Popper define o que um cientista faz. Popper é, provavelmente, o mais famoso filósofo da ciência do nosso século. Um filósofo da ciência é alguém que tenta entender o que um cientista faz. Frequentemente a gente faz coisas, e as faz bem, mas as faz de maneira tão natural e automática que nem se dá conta de como elas são feitas. Tal como aconteceu com aquela centopeia... Encontrou-se, um dia, com um gafanhoto que lhe disse: " Da. Centopéia, a senhora é um assombro, tantas pernas, todas andando ao mesmo tempo, nunca tropeçam, nunca se embaralham... Da. Centopéia, por favor me diga: quando a senhora vai andar, qual é a primeira perna que a senhora mexe?"

A Centopeia se assustou. Nunca havia pensado nisso. Sempre andara sem precisar pensar. "Não sei, senhor Gafanhoto. Mas prometo: da próxima vez que eu andar, prestarei atenção." Termina a estória dizendo que desde esse dia a Centopéia ficou paralítica... Isso é verdadeiro de todos nós. Veja, por exemplo, a fala - não é centopéia, é miriápodo: milhares de regras, complicadíssimas. Só que, ao falar, não temos consciência dessas regras. Não penso nas regras da gramática agora, que estou escrevendo. Escrevo da mesma forma como a Centopéia andava. Os gramáticos tentam entender as regras da fala. O filósofo da ciência se parece com o gramático: ele tenta entender as regras desse jogo linguístico que o cientista joga.

Contar piada é um jogo de linguagem. O seu objetivo é produzir o riso. A gente ri por causa das palavras. Ninguém, ao ouvir uma piada, pergunta se ela é verdadeira. Piada é jogo do riso, não é jogo da verdade. A "coisa" da piada, o humor, se encontra nas próprias palavras, e não na vida real, fora delas. O sargento berra; "Ordinário, marche!" Ninguém discute. Os pracinhas se põem a marchar. Ninguém ri. As palavras do sargento não são piada; são uma ordem. Ninguém pergunta se elas enunciam a verdade. Uma ordem não é para enunciar uma verdade; é um jogo de palavras cujo objetivo é produzir obediência. E o jogo de palavras que o cientista joga? Qual o seu objetivo?

As palavras do cientista têm por objetivo enunciar a verdade. Como num espelho: a imagem, dentro do espelho, não é real; é virtual. Mas, olhando para o espelho retrovisor do meu carro eu vejo o carro que vai me ultrapassar. A imagem virtual corresponde a uma coisa real. Eu acredito na imagem. Se não acreditar poderei provocar um desastre. Assim são as palavras do jogo que a ciência joga: elas buscam ser imagens fieis da realidade.

A ciência nasceu da desconfiança dos sentidos. Ela acredita que a realidade é como uma mulher pudica acredita que aquilo que a gente vê não é a verdade. Ela fica envergonhada quando é vista através dos sentidos. Esconde-se deles. Dissimula, Engana. A realidade, para ser vista em sua maravilhosa nudez, só pode ser vista - pasmem! - com o auxílio de palavras. As palavras são os olhos da ciência. "Teorias" e "hipóteses": esses são os nomes que esses olhos comumente recebem. Na verdade, todas a teorias não passam de são hipóteses. Uma teoria é uma hipótese que ainda não foi desbancada.

A ciência, assim, pode ser descrita como um "strip-tease" da realidade por meio de palavras. E o que é que a gente vê, ao final do "strip-tease"? A gente vê uma linguagem... Quem percebeu isso em primeiro lugar foram os filósofos gregos que diziam que, lá no fundo de todas as coisas sensíveis se encontra algo que pode ser visto apenas com os olhos da razão. A essa "coisa" eles deram o nome de "Logos", que quer dizer "palavra". Essa é a razão por que Popper definiu o cientista como alguém que "propõe declarações ou sistemas de declarações". Um cientista brinca com palavras. Mas não qualquer palavra. Muitas palavras são proibidas. Quais são as palavras que são permitidas?

Galileu responde: "O livro da filosofia é o livro da natureza, livro que aparece aberto constantemente diante dos nossos olhos, mas que poucos sabem decifrar e ler, porque ele está escrito com sinais que diferem daqueles do nosso alfabeto, e que são triângulos e quadrados, círculos e esferas, cones e pirâmides."

Com isso voltamos àquela aldeia de pescadores que aprenderam a pescar os peixes que nadavam no rio da realidade ( ver a crônica do dia 31 de maio)... Aprenderam que peixes se pescam com redes. Contei essa parábola como analogia para o que fazem os cientistas, pois eles também são pescadores que pescam no rio da realidade. Também eles usam redes para pescar. As redes dos cientistas feitas com palavras. Somente palavras que possam ser amarradas com nós de números. Os peixes que caem nas malhas da ciência são entidades matemáticas - do jeito mesmo como Galileu o disse.

Um tolo poderia dizer: "Que pena que se tenha de usar redes! Nas redes os buracos são muito maiores que as malhas! A rede deixa passar muito mais do que segura! Seria melhor se, ao invés de redes, usássemos lonas de plástico que não deixam passar nada. Assim, pegaríamos tudo!" Palavras de um tolo. Uma lona de plástico, por pretender pegar tudo, não pegaria nada. A rede só pega peixes porque os seus buracos deixar passar. As redes da ciência deixam passar muito mais do que seguram. As coisas que as redes da ciência não conseguem segurar são as coisas que a ciência não pode dizer. As coisas que "não são científicas". Sobre elas ela tem de se calar.

Estou ouvindo "Eu não existo sem você", do Tom Jobim. Só posso ouvi-la por causa da ciência. Foi a ciência que, com teorias e medições, construiu o meu computador. Foi ela que, com teorias e medições, produziu o CD, traduzindo a música em entidades eletrônicas definidas. Mas um engenheiro surdo poderia ter feito isso. Porque as redes da ciência não pegam música. Pegam entidades eletrônicas quantificáveis. Assim, um cientista que fosse também um filósofo, ao declarar "Isso não é científico", estaria simplesmente confessando: "Isso, as redes da ciência não conseguem pegar. Elas deixam passar. Seria necessário uma outra rede..."

Volto ao Manoel de Barros: "A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir os seus encantos." Outra rede: o meu corpo é a outra rede, feita de coração, sangue e emoção. Deixa passar o que a ciência segura. E segura o que a ciência deixa passar. Não mede os encantos do sabiá. Mas fica triste ao ouvi-lo, ao cair da tarde... Isso também é parte da realidade. Sem ser científico.




O que é científico? (V)


Fico logo arrepiado quando ouço alguém afirmar: " Estou convencido de que..." Digo logo para mim mesmo: "Cuidado! Lá vai um inquisidor em potencial!" Convicções são entidades mais perigosas que os demônios. E o problema é que não há exorcismo que seja capaz de expulsá-las da cabeça onde se alojaram, pela simples razão de que elas se apresentam como dádivas dos deuses. Os recém-convertidos estão sempre convictos de que, finalmente, contemplaram a verdade. Daí a transformação por que passam: seus ouvidos, órgãos de audição, se atrofiam, enquanto as bocas, órgãos da falam, se agigantam. Quem está convicto da verdade não precisa escutar.

Por que escutar? Somente prestam atenção nas opiniões dos outros, diferentes da própria, aqueles que não estão convictos de serem possuidores da verdade. Quem não está convicto está pronto a escutar - é um permanente aprendiz. Quem está convicto não tem o que aprender - é um permanente ( eu ia dizer "professor". Peço perdão aos professores. O professor verdadeiro, acima de todas as coisas que ensina, ensina a arte de desconfiar de si mesmo...) mestre de catecismo. " Boca de forno! Forno! Furtarm um bolo! Bolo...". Dizia Nietzsche que "as convicções são piores inimigos da verdade que as mentiras." Estranho isso? Não. Absolutamente certo. Porque quem mente sabe que está mentindo, sabe que aquilo que está dizendo é um engano. Mas quem está convicto não se dá conta da própria bobeira. O convicto sempre pensa que a sua bobeira é sabedoria.

As inquisições se fazem com pessoas convictas. O Inquisidor não está interessado em ouvir as razões daquele que está sendo inquirido. Interessa-lhe uma coisa apenas: " As idéias dessa pessoa são iguais ou diferentes das minhas?" Se forem iguais, está absolvido. Se forem diferentes, vai para a fogueira.

As consequências mortais e paralizantes das convicções se espalham por todos os campos. É bem sabido o que as convicções religiosas fizeram na Idade Média. A igreja católica e as igrejas protestantes, convictas de serem possuidoras de verdades que lhes haviam sido diretamente reveladas por Deus, mataram nas fogueiras milhares de pessoas inteligentes e boas simplesmente pelo crime de pensarem diferente: João Huss, Savonarola, Giordano Brunno, Miguel Serveto. Galileo escapou por pouco, graças à mentira.

Mas os demônios das convicções tem atributos dos deuses: são onipresentes. Escorregam da religião. Emigram para a política. Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser, escreveu esse parágrafo luminoso sobre a relação entre as convicções e os crimes políticos. " Aqueles que pensam que os regimes comunistas da Europa Central são obra exclusiva de criminosos deixam na sombra uma verdade fundamental: os regimes criminosos não foram feitos por criminosos, mas por entusiastas convencidos de terem descoberto o único caminho para o paraiso. Defendiam corajosamente esse caminho, executando, por isso, centenas de pessoas. Mais tarde ficou claro que o paraiso não existia, e que, portanto, os entusiastas eram assassinos."

As igrejas ditas cristãs, para proteger suas verdades se valiam de meios que elas mesmas lamentavam. "Os fins justificam os meios", alegavam. A mesma coisa pode ser dita dos governos dos ditadores, convencidos de que eles estavam a caminho do paraiso. " Que pena que temos de usar a violência! Mas são eles mesmos que nos obrigam! Querem desviar o povo da caminho verdadeiro!"

Nenhuma instituição está livre dos demônios das convicções. Nem mesmo a ciência. As instituições científicas são movidas pelas mesmas leis sociológicas, políticas e psicanalíticas que movem as igrejas e os governos. Para se entender bem as instituições científicas há de se ler Maquiavel, Freud e Foucault.

Os sacerdotes da ciência me responderão: "Peguei-te! Porque um dos dogmas centrais da ciência é que não estamos nunca de posse da verdade final. As conclusões da ciência são sempre provisórias. A ciência não tem dogmas!.

Certo, certíssimo! A ciência não tem dogmas quanto aos seus resultados. Pelo menos oficialmente, em sua declaração de intenções. Mas essa pretenção é constatada por Thomas Kuhn, autor de A estrutura das revoluções científicas . Ele afirma, baseando-se em dados históricos, que a ciência tem dogmas sim. E os seus dogmas são mantidos pelos cientistas que se agarram às suas teorias e não admitem jamais que a verdade possa ser diferente. Diz Kuhn que, frequentemente, é só com a morte desses papas que os dogmas caem do seu pedestal.

Mas, deixando isso de lado, há um dogma sobre o qual todos estão de acordo: o dogma do método. O que é o dogma do método ? Já expliquei: o método é a rede que os cientistas usam para pegar os seus peixes. E está certo: é preciso rede para pegar peixe. O dogma aparece quando se diz que real é somente aquilo que se pega com as redes metodológicas da ciência. Foi isso que fizeram com o meu augusto amigo: ele foi mostrar aos os seus amigos os pássaros que ele havia encantado tocando flauta e todos disseram: " Não foi pego com as redes metodológicas da ciência! Não é real! Não merece respeito!"

A loucura chega ao ponto do ridículo. Recebi uma carta de uma jovem que estava fazendo uma tese científica sobre minhas estórias infantis. A pobrezinha me escreveu uma carta, pedindo que eu respondesse um questionário. Ela, certamente nas mãos de um orientador científico, possuido pelo dogma do método, me colocava duas perguntas que me fizeram sorrir/chorar. Primeira pergunta: "Qual a teoria que o senhor usa para escrever suas estórias?" Segunda pergunta: "Qual o método que o senhor usa para escrever suas estórias?" Aí eu tive de contar para ela que muitas coisas nesse universo, muitas mesmo, nos chegam sem que as pesquemos com as redes da ciência.

O que dizia Picasso: " Eu não procuro. Eu encontro." As estórias são assim. A gente vai vagabundando, fazendo nada, com uma coceira no pensador, e de repente a estória chega - nas palavras do Guimarães Rosa - como a bola chega nas mãos do goleiro: prontinha. Sem teoria. Sem método. É só ir para casa e escrever. Uma coisa é certa: a estória não me chega quando estou trabalhando, quando estou procurando. E é assim que acontece com a poesia, a música, a literatura, a pintura e, inclusive a ciência. As boas idéias não são pescadas nas redes metodológicas. Não há método para se ter idéias boas. Se houvesse método para se ter idéias boas, bastaria aplicar o método que seríamos inteligentes. Frequentemente o resultado do uso do método é o oposto da inteligência. O tipo está lançando suas redes, as redes voltam sempre vazias, e ele não se dá conta dos pássaros que se assentaram no seu ombro. A obsessão com o método entope o caminho das boas idéias.

Entenderam agora a razão para essa série de crônicas com o título O que é científico ? É que eu estou preocupado com a devastação que o dogma do método pode fazer na inteligência e no caráter das pessoas, especialmente os jovens pretendentes a um lugar nos templos da ciência, coroinhas a serviço dos bispos. Na inteligência porque ele pode produzir cegueira: só é real o que cai na rede ortodoxa. (Veio-me agora uma idéia - chegou-me gratuitamente, sem método: o livro do Saramago, sobre a cegueira, não será uma parábola? Vou investigar...) No caráter porque ele pode tornar as pessoas intolerantes e inquisitoriais. Há sempre o perigo de que a ciência - coisa tão boa - se torne uma convicção religiosa, um dogma sobre a única via metodológica de se conhecer a realidade.




O que é científico? (VI)


Era uma vez um jovem que amava xadrez. Sua vocação era o xadrez. Jogar xadrez lhe dava grande prazer. Queria passar a vida jogando xadrez. Nada mais lhe interessava. Só lia livros de xadrez. Estudava as partidas dos grandes mestres. Só conversava sobre xadrez. Quando era apresentado a uma pessoa sua primeira pergunta era: Você joga xadrez? Se a pessoa dizia que não ele imediatamente se despedia. Tornou-se um grande mestre. Mas o seu sonho era ser campeão. Derrotar o computador. Até mesmo quando andava jogava xadrez. Por vezes, aos pulos para frente. Outras vezes, passinhos na diagonal. De vez em quando, dois pulos para frente e um para o lado.

As pessoas normais fugiam dele porque ele era um chato. Só falava sobre xadrez. Nada sabia sobre as coisas do mundo como pombas, beijos e sambas. Não conseguia ter namoradas porque seu único assunto era xadrez. Suas cartas de amor só falavam de bispos, torres e roques. Na verdade ele não queria namoradas. Queria adversárias. Essas coisas como jogo de damas, jogos de baralho, jogo de peteca, jogo de namoro eram inexistentes no seu mundo. Inclusive, entrou para uma ordem religiosa. Eu viajei ao lado dele, de avião, de São Paulo para Belo Horizonte. Cabeça raspada. Durante toda a viagem rezou o terço. Não prestei atenção mas suspeito que as contas do seu terço eram peões, cavalos e bispos. Sua metafísica era quadriculada. Deus é o rei. A rainha é nossa senhora. O adversário são as hostes do inferno.

As pessoas normais brincam com muitos jogos de linguagem: jogos de amor, jogos de poder, jogos de saber, jogos de prazer. jogos de fazer, jogos de brincar. Porque a vida não é uma coisa só. A vida é uma multidão de jogos acontecendo ao mesmo tempo, uns colidindo com os outros, das colisões surgindo faiscas. Uma cabeça ligada com a vida é um festival de jogos. E é isso que faz a inteligência. Mas o nosso heroi, coitado, era cabeça de um jogo só. Jogava o tal jogo de maneira fantástica. Especializou-se. Sabia tudo sobre o assunto. E, de fato, sabia tudo sobre o mundo do xadrez. Mas o preço que pagou é que perdeu tudo sobre o mundo da vida.

Virou um computador ambulante, computador de um disquete só. Disquetes são linguagens. O corpo humano, muito mais inteligente que os computadores, é capaz de usar muitos disquetes ao mesmo tempo. Ele passa de um programa para outro sem pedir licença e sem pensar. Simplesmente pula, salta. Inteligência é isso: a capacidade de pular de um programa para outro, de dançar muitas danças ao mesmo tempo. O humor se nutre desses pulos. O riso aparece no momento preciso em que a piada faz a inteligência pular de uma lógica para uma outra. Há a piada dos dois velhinhos que foram ao gerontologista que, depois de examiná-los, prescreveu uma dieta de comidas e remédios a ser seguida por duas semanas. Passadas as duas semanas, voltaram.

O resultado deixou o médico estupefato. A velhinha estava linda: sorridente, saltitante, toda maquiada. O velhinho, um caco, trêmulo, pernas bambas, dentadura frouxa, apoiado na mulher. Como explicar isso, que uma mesma receita tivesse produzido resultados tão diferentes? Depois de muito investigar o médico atinou com o acontecido. "- Mas eu mandei o senhor comer avêia três vezes por dia e o senhor comeu avéia três vezes por dia?" O riso aparece no jogo de ambiguidade entre avêia e avéia. O nosso heroi nunca ria de piadas porque ele só conhecia a lógica do xadrez, e o riso não está previsto no xadrez. A inteligência do nosso heroi não sabia pular. Ela só marchava. Faz muitos anos, um filósofo chamado Herbert Marcuse escreveu um livro ao qual deu o título de O homem unidimensional . O homem unidimensional é o homem que se especializou numa única linguagem e vê o mundo somente através dela. Para ele o mundo é só aquilo que as redes da sua linguagem pegam. O resto é irreal.

A ciência é um jogo. Um jogo com suas regras precisas. Como o xadrez. No jogo do xadrez não se admite o uso das regras do jogo de damas. Nem do xadrez chinês. Ou truco. Uma vez escolhido um jogo e suas regras, todos os demais são excluidos. As regras do jogo da ciência definem uma linguagem. Elas definem, primeiro, as entidades que existem dentro dele. As entidades do jogo de xadrez são um tabuleiro quadriculado e as peças. As entidades que existem dentro do jogo linguistico da ciência são, segundo Carnap, "coisas-físicas", isso é, entidades que podem ser ditas por meio de números. Esses são os objetos do léxico da ciência. Mas a linguagem define também uma sintaxe, isso é, a forma como as suas entidades se movem. Os movimentos das peças do xadrez são definidos com rigor. E assim também são definidos os movimentos das coisas físicas do jogo da ciência.

Kuhn, no seu livro Estrutura das Revoluções Científicas, diz que os cientistas fazem ciência pelos mesmos motivos que os jogadores de xadrez jogam xadrez: querem todos provar-se "grandes mestres".

Para se atingir o nível de "grande mestre" no xadrez ou na ciência é necessária uma dedicação total. Conselho ao cientista que pretende ser "grande mestre": lembre-se de que, enquanto você gasta tempo com literatura, poesia, namoro, em em conversas no bar DALI, há sempre um japonês trabalhando no laboratório noite adentro . É possível que ele esteja pesquisando o mesmo problema que você. Se ele publicar os resultados da pesquisa antes de você, ele, e não você, será o "grande mestre."

O pretendente ao título de "grande mestre" deve se dedicar de corpo e alma ao jogo da ciência. O cientista que assim procede ficará com conhecimentos cada vez mais refinados na sua área de especialização: ele conhecerá cada vez mais de cada vez menos. Mas, à medida que o seu "software" de linguagem científica se expande, os outros "softwares" vão se atrofiando. Por inatividade. O cientista se transforma num "homem uni-dimensional": vista apurada para explorar a sua caverna, denominada "área de especialização", mas cego em relação a tudo o que não seja aquilo previsto pelo jogo da ciência. Sua linguagem é extremamente eficaz para capturar objetos físicos. Totalmente incapaz de capturar relações afetivas. Se não houvesse homens no mundo, se o mundo fosse constituido apenas de objetos, então a linguagem da ciência seria completa.

Acontece que os seres humanos amam, riem, têm medo, esperanças, sentem a beleza, apaixonam-se por ideais. Meteoros são objetos físicos. Podem ser ditos com a linguagem da ciência. A ciência os estuda e examina a possibilidade de que, eventualmente, um deles venha a colidir com a terra. Dizem, inclusive, que foi um evento assim que pôs fim aos dinossauros. A paixão dos homens pelos ideais não é um objeto físico. Não pode ser dita com a linguagem da ciência. No entanto, ela é um não-objeto que têm poder para se apossar dos homens que, por causa dela se tornam heróis ou vilões, fazem guerra e fazem paz. Mas um projeto de pesquisa sobre a paixão dos homens pelos idéias não é admissível na linguagem da ciência. Não não seria aceito para ser publicado numa revista científica indexada internacional. Não é científico.

A ciência é muito boa - dentro dos seus precisos limites. Quando transformada na única linguagem para se conhecer o mundo, entretanto, ela pode produzir dogmatismo, cegueira e, eventualmente, emburrecimento.




O que é científico? (VII)


Se você está planejando fazer uma reforma na sua casa, aqui vai o meu conselho: marque horário no "consultório de arquitetura" do arquiteto argentino Rodolfo Livingston. Fiquei sabendo sobre ele através do um artigo "O homem, a casa e a felicidade", publicado na revista Mais Vida ( jan. 97). É um arquiteto fora do gabarito, especializou-se na reforma de pequenas residências, e se auto define como médico de casas, razão para o nome de "consultório" que deu ao seu escritório.

Quando a gente vai ao médico é porque alguma coisa está doendo de um jeito ou de outro. Mesmo quando se vai só para fazer um check-up, sem dor física alguma - há uma dor na cabeça: medo de que, secretamente, sem nenhuma dor, uma doença tenha se alojado no corpo. "Onde é que está doendo?" - essa a pergunta com que se inicia qualquer consulta, mesmo que não seja dita de forma clara. Pois é assim que Rodolfo Livingston inicia suas "consultas" : "Onde é que sua casa está doendo?" As casas podem doer, podem fazer amor. São muito mais que estruturas de cimento, tijolos, portas e janelas. Formam um espaço - e esse espaço se constitui num prolongamento do corpo. É por isso que elas "doem". Não basta que a casa seja feita de forma perfeita, do ponto de vista técnico engenharial, todas as paredes na vertical, todos os cálculos de viga corretos, casa que vai durar 150 anos. O fato é que há casas que nos fazem sentir bem, e outras que nos fazem sentir mal. Faz tempo, vi uma fotos da casa da Xuxa. Fiquei horrorizado. Mais rica não poderia existir. Mais cheia de solidão não poderia existir.

As casas, assim, podem ser vistas por dois ângulos diferentes: a casa em si mesma, objeto físico, e a casa como espaço que faz algo às pessoas que moram nela. A casa, em si mesma, objeto físico, é entidade científica. Nas faculdades de engenharia se aprende a ciência de construir casas. As paredes se esguem com fio de prumo. As vigas são feitas com cimento, ferro e matemática. As tintas se fazem com química. Os princípios cientificos para a construção das casas são universais. Valem para todas as casas, de todos os tipos, em todas as épocas, em todos os lugares. Quem sabe a ciência da construção de casas sabe construir qualquer casa.

A casa em relação às pessoas que moram nela, ao contrário, é casa como objeto de prazer ou dor. Para isso não há ciência. Nesse momento, estou ouvindo um CD de Negro Spirituals, que eu amo: "Sometimes I feel like a motherless child": por vezes eu me sinto como uma criança sem mãe... Sinto vontade de chorar. Esse CD foi produzido pela ciência. E com certeza há milhares de Cds iguais a ele dando prazer a outras pessoas. A ciência realiza feitos maravilhosos! Mas é possível que o técnico que o produziu não goste de "spirituals" - que prefira rock. Assim, a música e a letra que me comovem o deixam frio, talvez irritado. A técnica de fazer CDs pode ser ensinada de forma científica. Mas o "gosto" pela música - note que "gosto" é palavra tirada da gastronomia, ele se refere a uma "qualidade" que não pode ser explicada, dita, ensinada! - sim, o gosto pela música não pode ser ensinado de forma direta.

Se quero introduzir minha neta ao prazer dos "spirituals" eu tenho de me assentar com ela e dizer: "Fique quietinha, escute essa música que o vovô ama. Ela é muito bonita!" E aí, talvez pela contemplação do meu rosto, é possível que ela sinta o mesmo "gosto" que eu sinto. Isso vale para as casas. Há casas que me emocionam, que provocam a minha imaginação, eu gostaria de viver nelas. E outras, ricas, cheias de objetos de arte, me provocam um estranho sentimento de estar num espaço não humano. O alemão tem uma palavra curiosa "unheimlich". "Heim" é lar. "Un" é a negação.

Tradução: sentimento de estar num espaço estranho, que não é lar. Há algo errado na casa produzida em série, igual para todos, do tipo apartamento grãfino ou casa de conjunto habitacional. Porque as pessoas são diferentes. Não são produzidas em série. Há, em mim, algo que nenhum arquiteto sabe, nenhum decorador sabe, nenhum paisagista sabe. A alma humana não pode ser conhecida "em geral", "cientificamente". Cada pessoa é única. Cada casa, portanto, tem de ser uma coisa única. A casa tem de ser a realização objetiva dos espaços que moram em minha memória poética. Hegel diria: "objetivação do espírito". Marx diria: " espelho onde podemos nos contemplar -e ficar felizes". Freud diria: "um sonho de amor tornado visível"...

Rodolfo Livingston dá um puxão de orelha nas faculdades de arquitetura e urbanismo. " Os estudantes nunca viram um cliente e, depois de formados, falam uma linguagem que só eles entendem. Elaboram projetos funcionais; não perguntam para a pessoa, durante a reforma, onde a casa dói. Eu utilizo um "sofrenômetro" e um "felizômetro" para ir entendendo o que é importante e o que não é, para que meu cliente se sinta bem".

Claro que ele está fazendo uma brincadeira. Não há aparelhos que possam medir o sofrimento e a felicidade. Como disse o querido Manoel de Barros "a ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir os seus encantos." E acrescenta " Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. Os sabiás divinam."

Não há maneiras de fazer uma pesquisa objetiva, estatística, sobre o sofrimento e a felicidade. Porque sofrimento e felicidade não são objetos. Sofrimento e felicidade são qualidades de relações. Para se saber sobre relações é preciso conhecer a arte de adivinhar. Essa arte é rigorosamente proibida aos cientistas. Na verdade, eles nem sabem do que se trata. As ciências físicas pesquisam objetos. Conhecem objetos. Tudo ignoram sobre qualidades, isso é, o sentimento de felicidade ou infelicidade que um objeto produz numa pessoa.

A ciência produz os conhecimentos de química necessários para a fabricação de tintas de todas as cores. Coisa muito boa. Quando compro uma lata de tinta quero ter a certeza de que ela é da mesma cor da tinta que já comprei. A ciência garante isso. Ela sabe receitas precisas para a reprodução de objetos. Mas ela nada sabe sobre as reações de sofrimento ou felicidade que uma cor pode produzir. De que cor vou pintar a parede? Roxo? Preto? Rosa? Azul? Amarelo? Abóbora? Quando essa pergunta é feita saimos do campo da objetividade e entramos no campo da qualidade: o que a cor faz comigo. a relação do objeto comigo.

Um pesquisador enviou um projeto de pesquisa à FAPESP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Área médica. Propunha uma pesquisa qualitativa. Não lhe interessavam dosagens hormonais, estruturas anatômicas, metástases cancerosas: objetos que podem ser conhecidos quantitativamente. Interessavam-lhe sentimentos, essas "coisas" escorregadias que têm a ver com o sofrimento e a felicidade dos homens. Recursos para a sua pesquisa foram negados. Não sei se o projeto era bom ou não. O que me interessa são as alegações do assessor. Elas revelam muito. Transcrevo duas delas:

"1. Pesquisas qualitativas são extremamente vulneráveis a viés de todos os tipos, dificultando sobremaneira a confiabilidade, validade, e reprodutibilidade do estudo (que é o objetivo maior da investigação científica).

2. Esse trabalho dificilmente seria aceito para publicação em uma revista científica internacional. Penso que os recursos da FAPESP seriam mais adequadamente utilizados em pesquisas cujos resultados sejam confiáveis, válidos e reprodutíveis."

Acho que o assessor, quem quer que tenha sido, não marcaria hora no "consultório" do Rodolfo Livinston. Ele preferiria uma casa construida em série em algum conjunto habitacional.

Que pena que os cientistas proibam a investigação das coisas que trazem sofrimento ou felicidade aos homens!




O que é científico? (VIII)


Há os pianos. Há a música. Ambos são absolutamente reais. Ambos são absolutamente diferentes. Os pianos moram no mundo das quantidades. Deles se diz: "Como são bem feitos!" A música mora no mundo das qualidades. Dela se diz: "Como é bela!"

Dos pianos os mais famosos são os Steinway, preferidos dos grandes pianistas. São eles que se encontram nos palcos dos grandes teatros do mundo, dentre eles o de Campinas... Pianos são máquinas grande precisão. A sua fabricação exige uma ciência rigorosa. Tudo tem de ser medido, pesado, testado. As teclas devem ter o tamanho exato, devem reagir de maneira uniforme à pressão dos dedos, devem ter reação instantânea. E há de se considerar a afinação. O pianista Benedetto Michelangelo, ao iniciar um concerto na cidade de Washington, parou imediatamente após os primeiros acordes: o seu ouvido percebeu que a afinação não estava certa. O concerto foi interrompido para que um afinador desse às cordas a tensão exata para produzir os sons precisos.

Um dos objetivos da ciência exata da fabricação de pianos é a produção de pianos absolutamente iguais. Se não forem iguais, o pianista não conseguirá tocar num piano em que nunca tocou.

Digo que a fabricação de pianos é um ciência porque tudo, no piano, está submetido ao critério da medida: tamanhos, pesos, tensões. Mesmo as afinações, que normalmente requerem ouvidos delicados e precisos, podem prescindir dos ouvidos dos afinadores - o afinador pode ser surdo! - desde que haja um aparelho que meça o número de vibrações das cordas.

A realidade do piano se encontra em suas qualidades físicas, que podem ser ditas e descritas na precisa linguagem científica dos números. É essa linguagem que torna possível fazer pianos iguais uns aos outros. Na ciência, a possibilidade de repetir, de fazer objetos iguais uns aos outros, é um critério de verdade. Coisa de culinária: se digo que uma receita de bolo é boa, todas as vezes que qualquer pessoa fizer a mesma receita, com os mesmos ingredientes, nas medidas exatas, na mesma temperatura de forno, o resultado deverá ser igual. A exatidão dos números torna a repetição possível. Assim é a ciência, essa culinária precisa e útil. Tanto os pianos quanto os objetos da ciência são construidos com o auxílio de um método chamado quantitativo, isso é, que se vale de números. Na ciência e na construção de pianos só é real o que pode ser medido.

Pianos não são fins em si mesmos. Pianos são meios. Existem para serem tocados. A música é tão real quanto os pianos. Mas a realidade da música não é da mesma ordem que a realidade dos pianos. Essa é a razão por que os fabricantes de pianos não se contentam em fabricar pianos: eles vão aos concertos ouvir a música que os pianistas tocam. É certo que a música tem uma realidade física, em si mesma, independente dos sentimentos de quem ouve. A música existe mesmo se o CD está sendo tocado numa sala vazia, sem ninguém que a ouça. Mas isso não é a realidade da música. A realidade da música se encontra no prazer de quem a ouve. O mesmo vale para a comida. As cozinheiras cozinham para dar prazer aos que comem. Os pintores pintam para dar prazer aos que olham. Também os amantes beijam por causa do prazer. O desejo do prazer move o mundo.

O prazer é uma experiência qualitativa. Não pode ser medida. Não há há receitas para a sua repetição. Cada vez é única, irrepetivel. Um pianista não interpreta a mesma música duas vezes de forma igual. O "Concerto Italiano", de Bach, põe em ordem o meu corpo e a minha alma. Uma outra pessoa, ao ouvi-lo, vai dizer: "Que música chata!"

Desde cedo os filósofos naturais ( assim eram chamados os cientistas no passado) perceberam a diferença entre a ordem das quantidades e a ordem das qualidades. E as designaram com as expressões " qualidades primárias" e "qualidades secundárias". As qualidades primárias são aquelas que pertencem ao objeto, independentemente dos nossos sentimentos; elas podem ser ditas em linguagem matemática, tornando possível a repetição. Com elas se faz a ciência. As qualidades secundárias são aquelas que se referem às experiências subjetivas que temos ao "provar" o objeto. O frango-ao-molho pardo tem uma realidade física. Mas o "gosto" só existe na minha boca, na minha lingua e nas minhas memórias de mineiro.

Uma outra pessoa, com boca e lingua anatômica e fisiologicamente idênticas às minhas, mas que não participe das mesmas memórias (uma pessoa de convicções religiosas adventistas, por exemplo), sentirá um "gosto" diferente do meu, possivelmente repulsivo. A experiência do gosto, da beleza, da estética pertence ao mundo humano das "qualidades". Não pertence ao mundo das realidades quantitativas. A linguagem matemática da ciência não dá conta dessa experiência. Não é capaz de dizê-la. Faltam-lhe palavras. Faltam-se sutilezas. Faltam-lhe, sobretudo, interstícios. A ciência conhece as coisas que podem ser ditas quantitativamente. Mas como dizer a beleza de uma sonata? Lenin, ao falar do que sentia ao ouvir a sonata "Appassionata", de Beethoven, usa palavras do vocabulário dos apaixonados. Mas, ao lê-las, eu não fico sabendo como é a beleza da música. Que palavras irei usar para transmitir ao leitor o gosto e o prazer do frango ao molho pardo?

E, no entanto, essa "coisa" indizível é real. A experiência estética, não científica, qualitativa, se apossa do corpo: ruflam os tambores e os soldados homens para a morte. Ouço o Danúbio Azul e tenho vontade de dançar. Ouço a Serenata de Schubert e tenho vontade de chorar. Ouço a "Ave Maria" e a oração surge, expontânea, dentro de mim. Oujço o Clair de Lune, de Debussy, e fico tranquilo. Ouço o estudo op. 10 n. 12, de Chopin, chamado "revolucionário", e fico agitado...

Nada disso é científico, quantitativo. Mas é Real. Move corpos. O que comove os homens e os faz agir é sempre o qualitativo. Inclusive a ciência. Os cientistas, ao fazer ciência, não são movidos por razões quantitativas, científicas. São movidos por curiosidade, prazer, inveja, competição, narcisismo, ambição profissional, dinheiro, fama, autoritarismo.

Havia, certa vez, uma terra distante onde pianos maravilhosos eram fabricados. Os fabricantes de piano, envaidecidos por sua ciência quantitativa precisa, começaram a desprezar os pianistas, que tocavam movidos por razões qualitativas, indizíveis. Concluiram que os pianistas eram seres de segunda classe e terminaram por proibir que eles tocassem. E cunharam a frase clássica: " Fabricar pianos e preciso. Tocar piano não é preciso."

Isso não é ficção. É isso está acontecendo nos meios científicos brasileiros. As pesquisas "qualitativas" são rejeitadas sob a alegação de que seus resultados são imprecisos, não passíveis de serem repetidos, e por não serem aceitos para publicações em revistas internacionais. Todos os cientistas devem adorar diante do altar desse novo ídolo: as revistas interncionais indexadas. E esse ídolo que decide sobre o destino das pesquisas e dos pesquisadores. Na comunidade científica somente se permite a linguagem quantitativa. Tem havido casos de cursos de pós-graduação serem desqualificados pelo fato de seus pesquisas serem feitas no campo do qualitativo. O científico é fabricar pianos. O gostar de música não é científico.

O que leva a soluções científicas ridículas. De que maneira um pianista provaria sua competência, com vistas a um grau de doutor em música? Resposta fácil: dando um concerto. A ciência contesta. A ciência não sabe o que é um concerto. Se o pianista quiser ter o grau de doutor ela terá que escrever uma tese na qual a "qualidade" que ele sabe produzir é transformada num saber quantitativo duvidoso.

Guimarães Rosa profetizou que os homens haveriam de ficar loucos em decorrência da lógica. Já está acontecendo em nossas instituições de pesquisa. "Vivam os pianos! Mas os concertos estão proibidos!"



Rubem Alves - compilação de várias crônicas sobre ciência